sexta-feira, 2 de julho de 2010

CAPÍTULO XXIII

UM PLANO QUASE PERFEITO
O policial continua observando todo o movimento do Solar fingindo fazer a ronda revezando com um cúmplice e manda comparsas atrás de Genaro, para pesquisar o momento apropriado para executar o plano. Ao ouvir uma conversa casualmente, fica atento:
- E aí Alfredo, vai ouvir a Suzana cantar? – pergunta Viriato
- Cara, hoje é o grande dia!
- Parece até que é sua filha.
- É como se fosse.
- Dr. Genaro vai?
- Vai. Os pais do Rodrigo vão estar lá.
Viriato faz uma expressão de quem entende a causa da ida de Genaro.
O policial pega o rádio e avisa:
- Vai ser hoje. Uma grande oportunidade.
Suzana e as primas ansiosas contam as horas para o evento. Todos dirigem-se ao início da tarde para o colégio Rigel. Genaro, por insistência de Soraya e por sua própria conveniência comparece para conhecer o pai de Rodrigo, mais um bom contato para negócios. Paulo e Sérgio também vão para prestigiar os respectivos filhos. Embora a gincana se dê na véspera da final da Copa do Mundo, conta ponto para todas as matérias.
Lá fora, a quadrilha combina o esquema:
- Então vai ser daquela distância, ninguém vai ouvir nada.
- Você testou estas armas? É laser mesmo?
- Cê acha que tá lidando com um amador?
- Se não der certo vamos ter que esperar por outra oportunidade, porque dentro do Solar não dá.
- É...mas hoje deve dar certo.
- Qualquer alteração, o Waldir tá encarregado de avisar. O esquema tá perfeito. A gente pensou em tudo.
No colégio, Luciana em conchavo com outra menina, planeja que Suzana se saia mal na apresentação:
- Tá aqui, botei neste copo. –Luciana avisa
- Será que ela bebe? – pergunta a outra
- Ela vai tomar de um gole só! – Luciana afirma
Suzana apresenta-se com sucesso na coreografia com Sandra, Sônia e outras duas meninas. A platéia delira nos aplausos. Pouco antes da apresentação de canto, a menina que estava em combinação com Luciana, a chama:
- Suzana, não tá com sede? Bebe um gole antes de cantar.
- Ah, ‘brigada.
Suzana sente o cheiro do conteúdo e fica paralisada. A menina está certa de que ela não resistirá. Suzana começa a ter as mesmas sensações de ansiedade, sentindo calafrios à altura da nuca. Quando vai beber, lembra das palavras de Vitor: “Evite o primeiro gole”. Tira o copo de perto da boca e olha fixa e seguramente para a garota, dizendo:
- Eu tô muito feliz, por isto, vou devolver este copo sem dizer nada. Senão com certeza, eu atirava o que tá dentro na tua cara! Toma, perua! – Suzana joga na mão da menina que fica perplexa e dá-lhe as costas saindo vitoriosa.
Suzana impacta a todos nos bastidores devido a sua reação, dirige-se para o palco, canta e é ovacionada.
- Parabéns Genaro! – César cumprimenta
- Obrigado.
- Vitor, como a Suzana tá segura! – Helena comenta com satisfação
- Isto é só o começo. – Vitor afirma
Suzana recebe flores, agradece ao colégio e aos participantes de sua equipe, professores e a todos os presentes de sua família e amigos. Nos bastidores, Luciana morre de inveja.
A equipe de Suzana é premiada e ela em particular pela coreografia e pela interpretação. Todos tiram fotos juntos. Após algumas horas, quando muitas pessoas já haviam ido embora, os Castelli e os familiares de Rodrigo conversam despreocupadamente lá fora. De repente, Genaro indo em direção ao carro, observa espantado:
- Que é isso?! Os quatro pneus arriados?! Como é que pode?! Este colégio não tem seguranças?
- Claro que tem, Genaro. – Soraya lembra
- Então como é que não viram nada? Vou apurar isto.
- Genaro, não arruma confusão. – Soraya argumenta
- Ele tem razão. – César opina – Os seguranças devem prestar atenção nestas coisas.
- Mas gente, não vai adiantar, já fizeram a maldade. – Eneida tenta apaziguar
- Mas é realmente muito estranho. – Paulo observa
- Vamos fazer o seguinte: - Vitor tem uma idéia - já está tarde e não é conveniente que fiquemos aqui. Estou com meu carro, o Paulo com o dele, o Sérgio também. Nós dividimos o pessoal nos carros e depois se pensa no resto.
- Eu vou ficar aqui. – Genaro decide
- Eu ajudo o senhor Dr. Genaro – Alfredo oferece
- Eu vou procurar apurar o que houve e você procura ajuda. Aqui perto tem um posto.
Como todos tem muito espaço nos seus carros, não é preciso fazer muitas divisões de carona. Paulo leva Ricardo e Sérgio leva Renato. César e Eneida insistem em levar Soraya e Suzana, para que a última vá com Rodrigo.
Genaro procura saber sobre o ocorrido, mas os seguranças afirmam não ter reparado nada. Viram os quatro pneus furados, mas não ouviram nenhum ruído e embora estranhado, tiveram a impressão de ter sido naturalmente. Furioso, Genaro aguarda Alfredo que se dirige para o posto. Antes que este volte com ajuda, recebe uma coronhada e cai desacordado, tendo seu celular roubado para dificultar a comunicação. Devido a demora de Alfredo, Genaro o procura, afastando-se um pouco das proximidades do colégio. Os bandidos encapuzados agarram Genaro que nem tem tempo de gritar, encapuzando-o e jogando-lhe dentro do carro, advertindo:
- Cala a boca, senão leva chumbo!
Em casa, Soraya a princípio não se preocupa, pois sabe que por ser sábado e pelo horário avançado haveria dificuldade para resolver o problema. Porém, ao passar de meia-noite, liga para o celular de Genaro e ouve a gravação de caixa postal. Liga para o de Alfredo e o resultado é o mesmo. Fica mais apreensiva e liga para Heloísa. Lúcia de sua casa vê Heloísa indo para a de Soraya e pergunta o que houve. Assustada, a acompanha.
- Que bom que vocês estão me fazendo companhia. Tô ficando muito preocupada. Será que...
Ao toque do telefone já mais de uma hora da manhã, Soraya nem termina a frase e corre para atender:
- Alô?
- Dona Soraya?
- Sim.
- A senhora é esposa do Dr. Genaro Castelli?
- Sim, sou eu mesma. Aconteceu alguma coisa?
- O seu marido está conosco.
- Como? Quem está falando?
- Dona Soraya, não avise à polícia. Aguarde outro telefonema para saber local onde deixar o resgate.
- O quê?!
- Se a senhora colaborar não acontecerá nada com seu marido.
- Alô?! Alô?! Desligaram!
- O que foi, Soraya? – Lúcia pergunta apavorada
- Seqüestraram o Genaro!
Suzana aparece na sala.
- Mãe...
- Minha filha...
- Eu ouvi tudo.
- Filha...
- Mãe... – Suzana se desespera – A culpa foi minha!
- Que é isso, minha filha! Você não tem culpa de nada!
- Mãe, ele foi assistir a apresentação no colégio. Ele bem que não queria ir! Eu...ai! Eu tô passando mal... – Suzana leva a mão ao coração e sente muita falta de ar. Heloísa a socorre pondo em prática seus conhecimentos de enfermagem, apressando-se em recomendar:
- Lúcia, chama uma ambulância! Rápido!
O estado de Suzana impressiona, seus olhos reviram, sumindo as pupilas e ela fala com uma voz gutural:
- Ela vai ser minha... – Suzana desmaia.
Na casa de Vitor, o telefone toca e Helena que estava orando com este, apressa-se em atender:
- Alô?
- Tia Helena...
- Sandra? – Helena assusta-se ao ouvir a voz chorosa da sobrinha – Que foi?
- Tio Genaro foi seqüestrado!
- Como?!
- A Suzana têve um colapso! Tá em coma no hospital! Foi horrível! Até choque deram nela!
- Mas ela reagiu, né, Sandra?
- Ela parecia que ia voar, mas agora tá lá em coma, toda entubada.
- Sandra, vamos ter fé, não se desespera. Eu creio no poder de Deus e nós vamos clamar a Ele. Genaro vai ser encontrado e Suzana vai sair do coma, em nome de Jesus!
Helena comunica o fato a Vitor, que, embora baqueado, ora por Genaro e Suzana. Na sala da casa, olha com ternura para o mural de fotos dos familiares e das sobrinhas também destacados, entre estes um com as três juntas com as mãos unidas para cima, com uma tira de papel embaixo, escrita a dedicatória: “Para o tio Vitor, das suas três mosqueteiras”; uma foto maior de Suzana franzindo os lábios, com os dizeres: “Um beijo especial para o meu mais especial padrinho”.
Embora os Castelli procurassem abafar o fato, alguns repórteres de plantão conseguem apurar a ocorrência, que durante o dia chega às emissoras de rádio e TV. Vitor, ainda cedo, liga para seu tio Ciro para pedir que fique com sua mãe já que a notícia poderia chegar à ela. Ciro informa que esta ainda não sabia.
Na empresa Mega Mídia, Edú chega para trabalhar e Márcia indaga:
- Já soube da última?
- Sobre?
- Você não ouviu o rádio?
- Não.
- Nem ligou a TV?
- Não. Fala logo!
- Genaro Castelli foi seqüestrado.
- Quê?! Como?!
- Os detalhes ninguém sabe. Eu liguei pro Vitor e ele nem sabe como isso vazou. Foi logo depois de uma festa no colégio da filha dele. Os pneus do carro tavam furados, os outros foram pra casa e ele ficou com o motorista pra dar um jeito no carro. O motorista levou uma coronhada quando tava procurando ajuda e levaram o Dr. Genaro. O motorista conseguiu ligar mais tarde da rua e o outro irmão do Dr. Genaro, o Dr. Sérgio foi buscá-lo.
- Pôxa...E a filha dele? Ela tá sofrendo muito, né?
- A reação dela foi pior do que se pudesse imaginar. Ela tá em coma no CTI.
- Quê?!
- É Edú. O dinheiro não compra a vida de ninguém. Só Jesus nesta causa. Em nome de Jesus eu afirmo: o Dr. Genaro vai ser encontrado e a filha dele vai sobreviver.
Rodrigo que ainda dormia extasiado com o evento da noite anterior, nem imaginava o que estaria acontecendo. Ao despertar ouve o rádio que naquele exato momento dá a notícia. Rodrigo pula da cama aterrorizado ao ouvir que sua amada está em coma. Desce e encontra a mãe que levantou-se pouco antes dele e está na sala, sem saber do ocorrido.
- Mãe...
- Que foi filho?! Que cara é esta?! Você tá trêmulo!
- Mãe...o Dr. Genaro...a Suzana...
Rodrigo fica com a voz embargada pelas lágrimas sem conseguir falar. A mãe o abraça, dá-lhe um pouco de água e ele conta tudo.
- Meu Deus! Meu filho...aquela menina....não acredito....
Um flashback passa na mente de Rodrigo. A figura de Suzana não sai de sua cabeça. O jeito alegre e comunicativo da menina no dia em que se conheceram, sua graça no desfile, a bebedeira no Reveillon, a valsa que dançou com ela no seu “debut”, a visita surprêsa em Angra e o beijo que roubou dela e que foi o primeiro dos dois, os outros que trocaram no dia do aniversário dele, a dança alternada entre agitada e romântica na sua danceteria particular, o medo da barata de borracha, o pranto sentido no desabafo no recente retiro, a serenata de declaração de amor, o tombo cômico de Suzana ao ensaiar a coreografia assistida por ele e a sua noite de brilho na gincana.
No hospital, Soraya chorosa assiste à filha no CTI, falando com ela carinhosamente:
- Minha filha, eu te amo tanto. Desde o momento em que soube que você estava dentro de mim.
- Soraya, vem cá. - Heloísa aproxima-se sem entrar, chamando Soraya num tom bem baixo de voz
As duas vão para o corredor.
- O que o médico disse Soraya?
- Ele disse que o quadro dela é estável, mas requer cuidados. Ainda está tentando entender o que houve.
- Foi muito estranho. Nem com a experiência que tenho em enfermagem, nunca vi coisa igual. Nem parecia ela. Eu pensei que fosse um acesso de loucura, sei lá.
- Se o médico não sabe precisar o que há com ela, imagine você. Eu então entendo menos ainda.
- Pareceu alguma coisa pior que um colapso.
- Só espero que ela reaja.
- Ela vai reagir. Suzana é forte, Soraya. Eu sinto que ela tem uma força que ela mesma não identificou ainda.
- Haja o que houver, eu vou estar sempre ao lado dela. Eu vou cuidar dela. Ainda vou vê-la abrir os olhos.
- Vai sim. – Heloísa abraça Soraya confortando-a.
Enquanto o país vive a expectativa da final da Copa do Mundo de 2002 na partida do Brasil X Alemanha, a família Castelli só pensa encontrar Genaro e que Suzana saia do coma. Vitor está alerta e num momento que vai para fora de casa, vê um carro chegando e reconhece o motorista que faz serviços para Marisa, seu Ademar, trazendo Angelina, que sai apressada do carro, indo de encontro ao primo abraçando-o.
- Vitor, primo. Eu estou sabendo de tudo.
- Eu imaginei.
- Tentei ligar pra você, meu telefone deu defeito. Nem pelo celular consegui. Passei pela casa do Ciro e da Mary e me disseram que eles estavam com a tia Marisa. Então, eu fiquei mais descansada por ela, mas não dava pra esperar por notícias em casa. Passei pela casa do seu Ademar e felizmente ele estava. Se prontificou logo a me trazer.
- Dane-se a Copa! – grita seu Ademar saindo do carro – Vitor, que coisa, hein?
- Primo, eu não consigo acreditar! Genaro seqüestrado, Suzana em coma?
- Angelina, - Vitor coloca as mãos nos ombros da prima e fala olhando bem dentro dos seus olhos – temos que ser fortes e crer muito mais no nosso Deus. Estou sofrendo tanto quanto se fosse com algum dos meus filhos.
- Eu avalio. Aquelas meninas são muito importantes pra você.
A notícia continua se espalhando e chega ao conhecimento de Carolina, a menina que saiu do Colégio por causa da briga com Suzana.
- Mãe, cê ouviu a notícia?
- Não, que foi?
- A Suzana, aquela menina com quem eu briguei, até rolei no chão na escola, tá no CTI.
- É? Mas como?
- O pai dela foi seqüestrado.
- Bem, que nós podemos fazer?
- Ah, mãe, mas eu fui má com ela, com a prima dela. Nunca desejei uma coisa dessas. O pai foi muito duro com ela. Por causa da briga e da suspensão ela ficou um mês de castigo.
- Ah, mas também ela foi covarde. Ela é muito maior que você. Te deu na cara, te jogou no chão.
- Mãe, não é hora de lembrar disto. Ela não merece ficar em coma no CTI, não merece que o pai tenha sido seqüestrado. Eu quero saber dela.
- Nós procuramos saber o hospital em que ela está. – a mãe aceita por ver o interesse da filha, mas segundo sua maneira de pensar, não deveriam voltar a se envolver com os Castelli.
O Brasil é pentacampeão. O povo sai às ruas festejando. O país esquece as injustiças sociais, a crise econômica, os crimes bárbaros, até os delinqüentes comemoram. Esta alegria contrasta com a profunda tristeza e ansiedade que invade o clã dos Castelli. No hospital, Soraya comenta com Heloísa:
- Que ironia, o Brasil é pentacampeão e eu me sinto uma dupla perdedora.
- Não fala assim, Soraya.
- Helô, como eu posso me sentir? Meu marido seqüestrado, minha filha entre a vida e a morte.
- Ela vai reagir, o Genaro vai ser localizado. Tenha fé!
- Fé? Tá difícil.
Em casa, Rodrigo inquieto, é acalmado pela mãe.
- Mãe, eu preciso ir ao hospital onde a Suzana está.
- Filho, vem cá, querido, você tá muito tenso. Vamos ligar pra casa dela, pedimos informações sobre o seu estado, perguntamos o telefone do hospital pra ter maiores informações. No mesmo dia acontece o seqüestro e a menina entra em coma. Eles estão desesperados, com certeza. Pra dar apoio nós temos que estar calmos. Essa menina me encantou tanto que eu nem posso acreditar que esteja nessa situação.
Ricardo e Renato, preocupados com suas namoradas, vão ao Solar Castelli prestar seu apoio.
- Sandra, queria poder fazer alguma coisa. – Ricardo tenta consolá-la
- Não tem nada que se possa fazer. Agora é só esperar – Sandra está quase sem esperanças
- Vocês têm notícias dela? – Renato interessa-se
- O médico disse que o estado é estável – Sandra informa – mas ela continua em coma, com aparelhos controlando a respiração.
Sônia começa a chorar e vai para outro lado do jardim. Renato a acompanha.
- Não dá pra acreditar nisto, Sandra! – Ricardo revolta-se – Tava tudo bem; a Suzana se acertou com o Rodrigo, tava mais confiante, brilhou na coreografia da gincana, cantou e arrasou. Depois, acontece isso! Pôxa, eu não aceito! Eu sofro pelo Rodrigo que tá arrasado, você já tava mal por causa do seu irmão. Isso tem que acabar! É demais!
- É...eu já nem sei o que pensar. Tá demais, mesmo. – Sandra concorda
- Você não sabe nada do seu irmão, né?
- Novamente ele deu um sinal de “raspão” e sumiu.
- Espero que ele esteja bem.
Daniel participa de mais uma farra com alguns amigos, na casa de um filhinho de papai, onde campo está livre, sem a interferência dos donos. Daniel curte seu delírio, sua fantasia, mas no seu resto de sanidade, duas pessoas não lhe saem da mente: a irmã e a namorada. Ao vê-lo calado num momento de reflexão, o anfitrião o chama:
- Ei cara, ‘cê tá a fim de curtir uma?
- Já tô numa “nice”.
- Aquela gata moreninha não tira os olhos de você. Você também olhou pra ela.Convida ela pra subir.
- É, pode ser bom. Pra passar o tempo, tudo é válido.
- Você não existe! – estranha o rapaz – Ela é a garota mais desejada da festa e você a chama de “passatempo”?! A vida é curta! O Brasil é pentacampeão! Vai fazer seu “penta” com ela! Não pensa em nada, só curte!
Daniel, influenciado pelo rapaz vai até a garota que o recebe bem, conversa um pouco e depois sobem.
Após algumas horas, a garota desce, parecendo decepcionada. O anfitrião procura saber o que houve.
- Que foi, gata?
- Nunca mais quero ver aquele cara!
- Por quê?
- Pensei que tava curtindo comigo e me chamou de Flávia! Meu nome é Bárbara, não vou servir de reserva!
- Que cara mais idiota! – critica o anfitrião, que em seguida sobe, encontrando Daniel encolhido na cama.
- Que foi, cara?
- Não quero falar com ninguém.
- Cumé que cê dispensa uma gataça daquelas?! O nome já diz: Bárbara! Cê é muito otário! Ela já é minha!
O anfitrião pega a garota e os dois vão para o quarto dele. Na festa, ninguém pertence a ninguém e Daniel atormentado pela droga, pelo efeito depressivo que vem depois da euforia, sente-se só, acuado, tem alucinações, sente que as paredes estão querendo engoli-lo, vê monstros e sai correndo e gritando.
No dia seguinte às comemorações do penta, Sandra e Sônia vão à escola. Os colegas já sabem do fato e são solidários. Luciana arrepende-se por ter sido tão falsa com Suzana. Vários colegas combinam de ir ao hospital para ter notícias. Rodrigo também vai à aula, mas só pensa em Suzana. À tarde, liga para Vitor:
- Tio Vitor.
- Rodrigo, como está querido?
- Como eu poderia estar? – Rodrigo começa a chorar
- Rodrigo, é muito difícil, mas não fique assim, tudo vai ficar bem.
- Mas ela não reage!
- Rodrigo, creia em Deus, tenha a certeza de que em nome de Jesus, a Suzana vai sair desta e nós vamos ter notícias do Genaro.
- Ninguém ligou mais pra dar notícias dele, pra pedir resgate?
- Ainda não. Com esta euforia do penta, tudo para.
- Eu preciso ver a Suzana. Tanta gente tem ido que eu acabo não conseguindo ir
- Tem um horário certo e restrito. Amanhã eu acompanho você lá.
- ‘Brigado tio Vitor. Eu ligo pro senhor quando chegar da escola.
- Podemos nos encontrar lá direto. Às 2:00 da tarde.
- Meia hora antes eu já vou estar lá.
Enquanto Vitor despede-se de Rodrigo ao telefone, Patty entra chateada em casa.
- Que foi filha? – Vitor pergunta
- Ah, esse pessoal da rua fica me olhando, perguntam coisas do tio Genaro. Não têm mais o que fazer?
- Depois do penta, esse seqüestro tem sido o assunto.
- Não sei nem cumé que descobriram.
- Ah, minha filha, esses repórteres quando querem descobrem tudo.
- Eu tô tão triste. A Suzana lá em coma. Ela vai ficar boa, né?
- Em nome de Jesus! Tudo isso é espiritual. Deus vai responder às nossas orações.
No hospital, no dia seguinte, Paulo aparece. Heloísa é ríspida com ele:
- Que tá fazendo aqui ô Judas Iscariotes? Veio bancar o bom tio? Você nunca gostou dela!
- Helô, por favor. – Soraya pede
- Estou aqui pra dar notícias do nosso filho.
- Você o viu? Ele voltou pra casa? - Heloísa levanta-se ansiosa
- Ele foi visto por um colega que o está seguindo sem ser visto. Tô aguardando notícias.
Um pouco depois, ainda sem informações sobre Genaro, Rodrigo encontra Vitor no hospital para ver Suzana. Vitor ora, determinando a cura da sobrinha e Rodrigo entra no CTI. A princípio, fica impressionado ao vê-la cheia de aparelhos e até recua, mas consegue dominar o terror que sente e aproxima-se, falando baixinho perto do ouvido da amada, com esperanças que ela o esteja ouvindo:
- Suzana....Minha linda...eu te amo. – Rodrigo não consegue dominar as lágrimas – Suzana...Você vai ficar boa.... se Este Deus que seu tio Vitor fala tanto tem tanto poder, Ele tem que te tirar daqui agora, em nome de Jesus!
Rodrigo chega mais perto de Suzana e uma lágrima sua cai sobre a pálpebra direita de Suzana. Naquele momento, como que recebendo uma fonte de vida seus olhos se abrem. Suzana, com a máscara de oxigênio, começa a gemer e Rodrigo ao ver que ela está saindo do coma, sai pelo corredor eufórico, gritando:
- Ela abriu os olhos! Tá tentando falar!
- Fala baixo menino! Isto aqui é um hospital! – a enfermeira repreende.
- Desculpe. – Rodrigo abaixa a voz e Soraya e Heloísa vão até o CTI e constatam, acompanhadas pelo médico que Suzana saiu do coma.
O médico faz as perguntas de praxe para verificar o estado de Suzana e sua memória ao sair do coma. Ela parece bem, como se nada houvesse acontecido e é liberada para um quarto. A menina embora sem apresentar nenhuma seqüela, expressa uma grande tristeza, ao recordar:
- Meu pai...ele...
- Minha filha, a gente vai encontrá-lo. – Soraya a conforta - Ninguém ligou mais. Nós estamos aguardando. A Odete está lá em casa à espera. Deve ser a euforia da Copa. O Brasil é penta campeão.
- Que importa isso agora? – Suzana começa a chorar
- Filhinha, se acalma. Não deixa a emoção tomar tanto conta de você, se poupa.
- Eu não posso ficar sem você. – Rodrigo beija sua mão carinhosamente encostando-a no rosto.
Enquanto Heloísa aguarda no hospital, Paulo, perto do prédio da empresa com Sérgio assoberbado de trabalho pela ausência de Genaro, recebe um telefonema de Alexandre:
- Dr. Paulo, eu acho que o Daniel percebeu que eu o estava seguindo. Perdi o cara de vista outra vez.
- Meu Deus! Já tinha dado esperanças pra mãe dele!
- Eu vou entrar em contato com outros colegas nossos que moram por perto. Nós vamos conseguir Dr. Paulo.
Logo depois aparece Sérgio.
- E aí, alguma notícia? – Paulo indaga
- Agora que saiu nos jornais, na TV, não vão ligar tão cedo. Devem achar que a gente comunicou à polícia.
- Cancelei várias reuniões que o Genaro tinha marcadas pra logo depois da Copa. – Paulo comunica
- Você fez bem. Como é que nós vamos ter cabeça pra isso agora?
- Pois é, mas não podemos parar de trabalhar, né?
- Isso é, mas temos que achar um meio de ajudar nosso irmão. Por que não ligam? Que angústia!
- E eu, que também não acho meu filho?
- Pelo menos a Suzana saiu do coma.
O celular de Sérgio toca e ele vendo no visor de quem se trata, não atende.
- Não vai atender? – Paulo estranha
- Não. Não é nada de importante. Quer dizer, não mais do que nossa expectativa agora.
Os seqüestradores ficam em estado de alerta.
- Como é que foi vazar?
- Eu acho que foi um desses repórteres de plantão. Gente importante sempre dá assunto.
- Cara, temos que tomar cuidado.
No tráfico existem sempre as trocas de intreresse e as rivalidades. Sendo assim, um rival mais forte do que aquele que tramou o seqüestro de Genaro, convoca policiais e arquiteta um plano para que a polícia apareça como cumpridora de seu dever:
- Você liga do DISK DENÚNCIA. O bando é preso e a nossa turma fica sendo a dona do pedaço. Tenho uma remessa da branquinha mais pura pra vocês dividirem comigo. A gente entrega todos e cai fora, assim como foi com o Wilson Mattos! Vamos trazer mercadoria da boa lá do Paraguai. Nosso comando vai crescer e os clientes deles vão ser nossos!
Daniel encontra um “amigo” que da-lhe uma carona e despista Alexandre. Leva-o para uma praia distante, quando já está anoitecendo.
- Liberdade! – Daniel grita sob a euforia da droga, misturada com álcool.
- Cara, aquele garçom, onde a gente bebeu deve ter ficado com muita raiva da gente.
- Ele tava com uma cara!
- O rosto grandão, o corpo pequeno – o rapaz descreve no seu delírio
- Que máximo! Eu o vi lilás! – Daniel descreve.
- Cara, eu tenho mais neve quente aqui, da mais pura e branquinha, toma.
O lugar está deserto. Depois de se entupirem de droga, ficam mais um pouco na praia, descansam e no início da madrugada voltam ao carro. O amigo de Daniel guia sem cuidado. Há pouco trânsito devido ao horário. Num momento de lucidez vendo o perigo de perto, Daniel grita ao ver um caminhão que passa pela travessia quando o amigo está a toda velocidade:
- Cuidado cara, vai bater!!!! Aaaaaaaaaaaaaah!!!!!!!!
Não há tempo. O carro bate em cheio no caminhão e capota.

sábado, 12 de junho de 2010

CAPÍTULO XXII

REENCONTRO
Inicia-se a semana de aulas e Suzana além de pegar mais duro nos estudos ajudada pelas primas, treina a coreografia para a gincana do colégio. Sandra, Sônia e Rodrigo insistem e Suzana também se inscreve para cantar.
- Sandra, eu tô tão nervosa!
- Não sei por quê.
- Ah, Sandra, se põe no meu lugar, vou cantar prum povão!
- Mas Suzana, você consegue, basta treinar e na hora esquecer que tem uma multidão assistindo.
- Ai...será que eu consigo?
- Lembra das vezes que você cantou pra outras pessoas, inclusive lá no retiro que a gente foi?
- Mas foi diferente, tinha muito menos gente. Foi na brincadeira.
- Mas você não conhecia muitos deles, lá no colégio vai muita gente que você conhece e vai torcer por você.
- Muita gente invejosa também.
- Esquece os invejosos.
- Ai, eu to tão cansada, tô tensa, vou tomar um banho.
- Vai, vai relaxar.
Enquanto Suzana sobe, toca o telefone para Soraya.
- Alô?
- Dona Soraya?
- Rodrigo! Que honra para uma “pobre marquesa,” querido!
- Quê?! – Rodrigo ri
- Uma brincadeira de família! Você parece querer me consultar, senão teria ligado direto pra Suzana, tô certa?
- Certíssima.
- Então, em que posso lhe ser útil?
- Bem...a minha mãe voltou.
- Enfim, poderei conhecê-la.
- Pois é...
- Mas, você parece meio sem jeito.
- É que...
- É que...o quê? Não precisa ficar sem jeito, nós somos amigos, ou não somos?
- Claro!
- Então, fala querido.
- No dia 15 é meu aniversário e eu não vou fazer festa, pensei em dar um jantar e gostaria de convidar a senhora e o Dr. Genaro, mas a Suzana fica tão retraída na presença do pai.
- Querido, eu entendo e agradeço a sua confiança em mim. Você tem receio de magoar a mim e também ao Genaro, mas eu confirmo o que você colocou. Ela não é espontânea quando está perto do pai.
- Eu preferi falar primeiro com a senhora, porque minha mãe ia achar indelicado não convidar vocês. Ela disse que eu pensasse no que queria fazer, depois falasse com ela. Eu confesso que também fiquei preocupado porque quero muito que ela venha e eu pensei em pedir à minha mãe que não sirva bebida alcoólica. Entende?
- Sei...Rodrigo, eu aprecio muito a sua dedicação, sua preocupação. Aliás, não me chame mais de senhora, vamos deixar as formalidades de lado, tá?
- Tá.
- Vamos fazer assim: você chama a Suzana primeiro, pro seu aniversário. Eu e Genaro vamos noutra ocasião.
- Tá. Eu vou convidar os meus primos e pensei em chamar as meninas.
- Boa déia. Ela vai se sentir mais à vontade com as primas. Você é bastante sensível, meus parabéns.
- Obrigado.
- Liga pra ela. Ela tá no quarto.
Rodrigo liga imediatamente para Suzana que atende apressada depois de colocar o roupão.
- Alô?
- Suzana?
- Oi.
- Você tava ocupada? Tá ofegante.
- Eu tava saindo do banho. Tava colocando o roupão quando o telefone tocou.
- E aí? Tá animada pra festa do colégio, pra gincana?
- Ai...nem fala...tô num nervoso!
- Eu tenho um convite pra fazer que é mais do que um convite, é uma intimação.
- Hein?! Intimação?! – Suzana espanta-se embora ache graça
- Você e suas primas estão convidadas pra jantar aqui no dia 15, meu aniversário. O Rick e o Rê também vem.
- Ah.. ‘brigada...a gente vai sim!
- Você vai conhecer minha mãe. Ela chegou. O meu pai também.
- Ai...mais um motivo pra nervosismo.
- O meu pai é um pouco mais formal, mas sabe receber bem. Minha mãe vai gostar muito de você, eu tenho certeza e você também dela. Ela vai te deixar bem à vontade.
- Se as minhas primas também estão convidadas, eu acho que vou descontrair mais.
- Com certeza. Eu sabia disto. Tá vendo como eu te conheço?
- É...esperto!
E onde estaria Daniel? Sem rumo, ora pelas ruas, ora em casa de companheiros de vício. Encontra um destes, Gustavo, num dos momentos de alguma sobriedade, enquanto a ansiedade pela droga ainda não o domina:
- Cara, eu estive com ela.
- Com ela, quem?
- Com a minha gata.
- Qual delas?
- A minha gata, ora!
- Ah, Dani! ‘Cê tá querendo me dizer que tá com uma gata só, depois do que eu vi nas festas que a gente foi?
- Ah, você não entende!
- Dani, cara, ‘cê continua o mesmo “pegador”, nós nos divertimos bem da última vez, ou ‘cê não tá lembrado?
- Eu sei...na hora eu curti, mas depois...senti um vazio. Não se compara com o que eu sinto quando tô com ela.
- Então ela deve ser ótima naquelas horas!
- Não é só “naquelas horas”. Ela é especial.
- Então você quer dizer que com as outras é só sexo e ela você ama? – Gustavo fala com tom debochado.
- Cê pode zoar, cara, mas eu nunca senti por ninguém o que sinto por ela.
- Cê tá com falta de combustível. Vamo pegar um estoque? - Gustavo quer dizer uma quantidade de droga
- Onde?! – Daniel praticamente transforma-se com o oferecimento, já que a droga ainda vencia o amor
- No ponto habitual.
- Tá com “substância?” – Daniel refere-se a dinheiro
- Pode deixar, cara, tô bancando. O seu trabalho vai ser só pegar
- Vamo nessa!
Chega o dia tão esperado por Rodrigo. Suzana e as primas se arrumam, todas escolhem blusas de cetim de mangas compridas, mesmos modelos, de cores diferentes. Suzana opta por uma azul-rei, Sandra, uma verde-escura e Sônia, grená. Para combinar, todas usam calças compridas pretas e os sapatos, também pretos de acordo com a altura de cada uma. Suzana fixa-se no espelho colocando rimel nos olhos.
- Sú... cê tá tremendo – Sandra observa
- Tô tão tensa.
- Quer que eu ajude? – Sandra oferece
- Precisa não...eu fico nervosa com alguém fazendo, prefiro fazer eu mesma.
- Vamos ficar de olho na hora, gente. – Sônia adverte
- É mesmo. – concorda Sandra.
- Ai, gente...será que eu tô bem? – pergunta Suzana apreensiva
- Cê tá ótima! – conforta Sandra – Gente, vamos usar casacos, vai ficar frio mais tarde.
Na hora de sair, Suzana despede-se dos pais
- Mãe, pai, nós já vamos.
- Tá filha, divirtam-se – Soraya deseja
- Eu tô bem? – pergunta Suzana um pouco insegura
- Tá um pouco “lambuzada”. – Genaro critica
- Genaro! – Soraya o repreende – Você tá ótima, filha. Você já é linda de natureza.
- ‘Brigada, mãe...Vamos então, gente?
- Vamos lá! – respondem quase ao mesmo tempo Sandra e Sônia
Enquanto isto, Rodrigo esperava ansioso, quase como um noivo no altar.
- Mãe, obrigado, você pensa em tudo. Elas estão demorando.
- Calma, cara. Devem estar chegando – Ricardo tranqüiliza o primo.
- Parece que você não sabe como é mulher pra se arrumar! – Renato observa
Neste exato momento as três chegam. Eneida, a mãe de Rodrigo, aos 52 anos é uma bela senhora, e muito simples. É um pouco gordinha, tem os cabelos ruivos como os do filho caçula e usa um vestido rosa shocking.
- Meu Deus! Você é linda! - Eneida fica impressionada com a beleza de Suzana.
- A senhora, como o seu filho, tá me deixando com vergonha.– Suzana ri de nervoso e fica rubra
- Ser linda não é vergonha pra ninguém, minha querida. Você devia estar nas passarelas! Ah! Desculpe, eu quase que não falava com vocês – Eneida se dá conta que não se dirigiu às outras – Vocês também são lindas! – cumprimenta-as e elas se apresentam:
- Eu sou a Sandra.
- Eu sou a Sônia
- Eu já conheço vocês de nome. O Rick e o Rê já deram a ficha toda.
- É? – Olha lá o que vocês falaram da gente, hein? – brinca Sandra
Suzana conquista de imediato Eneida. A conversa entre as duas transcorre como se já se conhecessem antes.
- Por que a senhora demorou tanto tempo de viagem? Eu queria tanto conhecê-la. O Rodrigo fala tanto da senhora.
- Eu tive que ficar mais tempo do que o previsto com a minha filha, lá em São Francisco. Ela têve uma gestação complicada, pressão alta. Meu marido também foi por um período, por isso que o meu caçulinha ficou aqui com os pais do Rick. Iam começar as aulas e ele tinha que ficar. Morri de saudades dele, dos meus outros filhos. Felizmente correu tudo bem.
- Que bom.
- Nós só estamos esperando meu marido, o César. Você também ainda não o conhece, né?
- Não. Vou ter o prazer.
O pai de Rodrigo chega e o jantar transcorre muito descontraído, pois Eneida, uma mãe que coruja muito o seu caçula, tudo faz para que seja uma noite inesquecível para ele.
- Suzana, o Rodrigo me disse que você canta.
- É...um pouco.
- Que um pouco, menina! Ele disse que você canta mesmo e que vai cantar na festa do colégio! Eu vou lá, viu?
- Você me paga! – Suzana brinca olhando atravessado para Rodrigo
- Você não quer dar uma canja? – Eneida pergunta
- Quê?! – Suzana estranha o termo
- Eu tô querendo dizer se você não quer cantar pra gente.
- Eu não me atrevo.
- Ah, canta! – Eneida insiste
- Ela tá escondendo o jogo, mãe. É que se ela cantar aqui pode quebrar os vidros!
- Ela canta lá fora! – Eneida dá a idéia
- Vamos Suzana, “não se avexe não, baião de dois!” – Rodrigo brinca
- Gente, vocês me pegam de jeito, hein? – Suzana novamente enrubesce
Lá fora, Suzana canta um trecho de “Bachianas nº 5” e Eneida se surpreende com sua voz.
Depois de conversarem um pouco mais, Eneida deixa os adolescentes a sós para que se sintam mais à vontade.
- Sua mãe é muito legal – Suzana comenta com Rodrigo
- Ela me paparica um bocado, né?
- Você tem sorte de ser o caçula.
- E você que é filha única?
- Eu sou paparicada pela minha mãe, mas quando ela tem que dar bronca, dá. Até dá castigo.
- E o seu pai, tá melhor com você?
- Mais ou menos.
- Como assim?
- Ah, hoje, pouco antes de eu vir pra cá, ele disse que eu tava um pouco “lambuzada”.
- Quê?! – Rodrigo espanta-se.
- Ele quis dizer: com maquiagem demais.
- Que nada! Um batonzinho básico, clarinho, dando um brilho nessa boquinha carnuda, linda que você tem, - Rodrigo toca suavemente com o dedo indicador no lábio inferior de Suzana - um pouquinho só de blush, - toca-lhe delicadamente a face com a ponta dos dedos - um pouquinho de rimel. Isto não é lambuzada.
- Pra ele é. Ele implica muito comigo! – Suzana dá um suspiro de desânimo
- Eu acho que ele tá chateado de não ter sido convidado.
- Também acho. Ouvi minha mãe conversando com ele que hoje era pra adolescentes. Se meu pai estivesse aqui, ia ser um saco! Ele ia me chamar a atenção o tempo todo.
- Bem, ele é seu pai e não tenho nada contra ele, mas, vamos esquecer dele. Vamos falar de nós dois.
- Ah...como assim?
- Suzana, para de fugir. – Rodrigo fala docemente
- Eu...tá ficando frio aqui, né?
- Eu vou te levar prum lugar mais quente.
- É? Onde?
- Vem comigo.
- Onde vocês estão indo? – pergunta Sandra, acompanhada por Ricardo, Sônia e Renato.
- Eu tava indo mostrar um lugar pra Suzana.
- Ah, então podem ir.
- Vocês podem ir também, mas cada um fica com seu par.
Rodrigo leva todos ao local já conhecido pelos seus primos que logo deduziram do que se tratava.
- Aqui é minha danceteria particular.
- Que máximo! – Suzana fica maravilhada ao ver o local todo equipado para dançar, com luzes coloridas. Logo todos se dispõem a usufruir, já que estão na idade das agitações.
- Te prepara, que ela vai te tirar o fôlego. – Sandra avisa a Rodrigo sobre a disposição da prima para dançar.
- Eu tenho reservas de oxigênio – responde Rodrigo motivando-se a seguir o “pique” da garota
Os pares se espalham, pois o espaço é grande. As meninas logo tiram os agasalhos, pois o clima vai esquentar. Suzana e Rodrigo demonstram mais energia, dançam sem parar as músicas iniciais que são mais agitadas. Depois as músicas que se intercalam são mais lentas e há a pausa, em que os casais dançam abraçados. Os braços de Rodrigo se abrem para Suzana e ela a princípio sente-se um pouco de retraída com o olhar verde dele mais penetrante. Em poucos minutos, enlevada pelo clima da música, Suzana relaxa nos braços de Rodrigo que suavemente beija seus cabelos negros. Os dois se entreolham e Suzana se permite olhar sem resistência e acontece um beijo, embora um pouco tímido da parte de Suzana, mas retribuindo o carinho de Rodrigo.
- Fato consumado. - sintetiza Sandra que para um pouco de dançar sentando-se ao lado de Ricardo.
- Com certeza – concorda ele.
O clima entre Suzana e Rodrigo está tão intenso que os outros apreciam encantados, pois o casal que já pode ser chamado de namorados se acerta depois de tantos desencontros. Os outros dois pares quase não falam e vão para outro canto, para deixá-los mais à vontade. Depois de algumas danças lentas e carícias, os dois dão pela falta dos outros.
- Cadê o pessoal? – Suzana pergunta
- Eles sentiram que cada par deve procurar seu canto particular.
- Por falar em canto particular, vamos lá pra fora?
- Acho que nós nos aquecemos bastante aqui, né?
Os dois vão para o jardim. Noutro canto, Sandra e Sônia observavam com seus respectivos pares e próximo à porta de casa, Eneida com o marido apreciava com satisfação aquele momento de ternura entre o filho e Suzana.
- Sú... – Rodrigo surpreende Suzana ao chamá-la por apelido
- Aprendeu com a Sandra?
- Seu nome é muito bonito, mas acho que de vez em quando vou gostar de chamar você por apelido.
- Pode chamar. O tio Vitor chama a tia Helena de Lelê.
- É o único que a chama assim né?
- O pai dela que era o avô da Sandra e do Daniel também chamava.
- Eu acho a família do seu tio muito bonita.
- A sua também é.
- É? ‘Brigado. Ainda vai haver oportunidade de você conhecer meus irmãos.
- Quando der, vou gostar muito.
- Minha mãe gostou mesmo de você. Eu não disse?
- Que bom. Eu senti que foi sincero da parte dela. Eu é que sou muito encabulada mesmo.
- Você tem seus momentos de extroversão. Só se encabula mais quando a gente repara na sua beleza, quando faz um elogio. Mas eu gosto do seu jeitinho.
- Eu...também gosto do seu. Não sei por quê eu não me dei a chance de conhecer você melhor antes.
Rodrigo se aproxima mais de Suzana e acaricia o seu rosto dando-lhe um beijo suave. Lá de longe, Eneida vibra comentando com o marido:
- Olha lá César! Os dois estão se beijando!
- Essa garotada não perde tempo.
- Mas pelo que o Rodrigo me contou, demorou pra engrenar.
- Agora eles estão dando a partida.
- E vão chegar com sucesso à linha de chegada!
Vivendo a liberação dos sentimentos, os adolescentes se olham com carinho.
- Pôxa...eu nem sei explicar o que eu tô sentindo. – Suzana o olha com ternura
- Não foi a primeira vez que eu te beijei. – Rodrigo lembra.
- É...mas...eu senti uma coisa diferente agora. Da outra vez eu fiquei abobalhada, fui pega de surpresa.
- Eu tô tão feliz de estar com você aqui, agora. Eu quero que você seja a única na minha vida.
- Você tá especialmente romântico hoje.
- Deve ser inspiração dos meus 17 anos. Eu sinto como se estivesse nascendo hoje.
- É ...Parece um recomeço.
- É o recomeço do começo que começou.
- Ai, Rodrigo! Que complicação!
- É...mas você entendeu, né?
- Entendi. – Suzana ri por um instante mas logo depois fica séria. Os dois se entreolham novamente com mais ternura e após breves afagos de um no rosto do outro, trocam mais beijos.
- Acho melhor nós entrarmos. – César aconselha Eneida - Quem é muito observado acaba percebendo. Vamos deixar os dois pombinhos à vontade.
- Ah...eu...vou entrar, mas é que eu tô achando tão lindo! Lembrei de nós dois quando namorávamos. Hoje em dia a garotada só quer ficar.
- É...parece um resgate aos bons tempos.
- César, desejo que dê certo mesmo, que eles sejam tão felizes como a gente é.
- Faço minhas as suas palavras.
Naquela madrugada ao chegar em casa, Suzana custa a dormir, tamanha é sua excitação com os últimos acontecimentos. Para chamar o sono e extravasar a ebulição que ocorre dentro de si, pega o diário no qual lê os dizeres bíblicos: “O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões” (Provérbios, 10: 12); “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine” (1 Coríntios, 13: 1).
Rio, 16 de junho de 2002
Oi, Diário!
Foi aniversário do Rodrigo e eu fui à casa dele pela primeira vez. Meu pai achou que não tinha nada a ver,que os pais dele teriam que vir aqui primeiro, mas isto já tá fora de moda, como disse a minha mãe. Ela mesma achou melhor eu ir, assim, de uma maneira menos formal. Eu me senti tão mais livre sem o meu pai lá. Eu e o Rodrigo nos entendemos. Agora eu tenho a certeza dos meus sentimentos e dos dele. Os beijos que a gente trocou foram a confirmação. Rodrigo é um cara especial. Eu perdi tanto tempo, mas felizmente tudo passou. Foi aniversário do Rodrigo, mas eu ganhei o presente também. Quero ser um presente na vida dele. Parece que no momento certo a gente se reencontrou. TÔ TÃO FELIZ!!!
Té mais diário querido!
Suzana.
Suzana prepara-se para a gincana do colégio e intensifica os ensaios de coreografia e canto. Suas notas melhoram e tudo parece correr bem.
Sandra,apesar de ter o consolo de Ricardo que a ouve muito, continua triste por não saber nada sobre o irmão. Porém, a máfia do tráfico prossegue sua busca e após muita persistência, encontra uma pista.
- Chefe, eu to na pista do Dani Castelli!
- Então aquele celular serviu pra alguma coisa.
- Se serviu! Ele tá indo pra um ponto aqui perto.
- Vai lá, mas tenha tato. Se o cara estiver drogado vai ser melhor.
- Deixa comigo, chefe!
Experiente, o traficante que havia sido informado do local por outro usuário espera Daniel. Ao ver outro freqüentador, o interpela:
- Cara, espera um pouco.
- Qual é?
- Eu já vi você comprando aqui. Aquele lá, você conhece, né?
- O Dani Castelli?
- É. Tá a fim de fazer um negócio comigo?
- Que é?
- Eu tenho uma “neve quente” aqui da boa. Te dou em troca de um serviço.
- Assim não vai dar. Como é que eu vou saber se você tá falando sério?
- Tá, vamos fazer o seguinte: te dou uma quantidade menor agora, depois, a gente se encontra aqui.
- Fechado. Cadê?
- Toma aqui. Cuidado.
O traficante dá algumas instruções sobre o que pretende em relação a Daniel prometendo parceria ao rapaz e mais uma recompensa em quantidade de drogas. Aceitando o negócio, o rapaz logo depois vai até Daniel.
- Oi Dani.
- Oi...
- Cara, tá esquecido de mim?
- Ah, você é o...o...
- Cássio.
- Ah, cara! Desculpa eu não guardo nomes com facilidade, ainda mais aqui que aparece tanta gente.
- Cara, eu tenho uns lances pra você. Você já conseguiu droga?
- Tô pegando prum amigo com quem vou repartir.
- Pega a dele e a sua parte que depois eu vou ter mais pra você.
Obcecado em ter mais drogas, Daniel apressa-se para obter para o amigo e depois de despachá-lo, vai até Cássio.
- E aí, cara?
- Calma, cê tá abastecido. Espera um pouco pra outra dose.
- Tô muito a fim.
- Vamos prum lugar mais discreto.
Daniel o segue e num lugar de menor movimento os dois cheiram mais. Mais experiente, Cássio espera que Daniel esteja mais dominado para dar continuidade ao seu plano.
- Cara, cumé que tá a tua irmã?
- Não falo com ela há um tempo. Não tô querendo muito aparecer senão minha mãe pode descobrir a minha pista e me interna de novo.
- Cê ‘têve internado?
- Minha mãe mandou uns caras que me amarraram e me prenderam como se eu fosse um cão danado!
- Se quiser, pode usar meu celular.
- Ela pode avisar minha mãe, sei não...
- Já sei! No colégio dela!
- Mas alguém pode me ver.
- Eu procuro por ela e dou um bilhete seu.
Cássio consegue tocar no ponto fraco de Daniel. Ao encontrar o traficante, passa-lhe as últimas informações:
- E aí, cara, cumé que foi com o Dani Castelli?
- Tá no papo!
- Vai em frente. Cê tem que conquistar a confiança dele pra colocarmos o plano em ação.
- A confiança dele eu já conquistei, cara. Isto é mole! Nunca pensei que o Dani fosse tão otário!
- Pra enrolar a gente e o chefe até que ele não foi.
- É, mas eu já tive umas boas informações.
No Solar Castelli, as meninas estão entretidas com os ensaios para a gincana intercalados pelas emoções das vitórias do Brasil na Copa do mundo. As três primas estão mais unidas do que antes.
- Sandra, eu tô cada vez mais nervosa, mais ansiosa. – Suzana desabafa
- Você não tem motivo pra isto.
- Como não tenho?! A minha voz tem falhado quando eu ensaio, às vezes eu esqueço os passos da coreografia.
- Sú...pensa no Rodrigo e esquece os outros quando estiver se apresentando – sugere Sônia
- Ah, até parece que é fácil assim!
- Você vai arrasar, Sú! – Sandra a anima
- Sei não...
- E você Sandra, tá animada pra gincana? – Sônia pergunta
- Tô né...
- Não precisa nem dizer o porquê deste “tô” tão chôcho.
- Pois é...faz tempo que eu não tenho notícias dele.
- O seu pai não tem mais procurado? – Suzana indaga
- Tem, mas não tem dado resultado.
- Um dia ele volta Sandra – deduz Sônia – O tio Vitor conta muito uma história que tem na Bíblia, a “parábola do filho pródigo”, de um filho que abandonou a família, mas depois chegou à conclusão que tava errado e voltou pra casa.
- Sônia, estas histórias são muito bonitas, mas não dá pra comparar com os dias de hoje. Eu não acho que tudo que tá na Bíblia seja verdade. – avalia Sandra completamente discrente
- Mas tem mensagens de esperança. – Sônia procura animar a prima
- Gente...sei lá...acho que o Dani não quer voltar. Acho que ele tá com medo que descubram onde ele tá.
- Ele não vai conseguir ficar muito tempo sem dar notícias, Sandra – deduz Suzana
- Com certeza, priminha – concorda Sônia
Cássio continua em conchavo com os traficantes que arquitetam um plano minucioso para obter dinheiro além do que Daniel lhes deve. Várias reuniões se sucedem e este passa para o grupo as informações que obtém:
- E aí, ele conseguiu contactar com a irmã?
- Ainda não, mas já estou traçando o esquema.
Cássio vai com Daniel à escola de Sandra. Daniel esconde-se e Cássio aproxima-se com cuidado quando Sandra conversa com uma amiga:
- Você é Sandra, irmã do Daniel?
- Sou. Cumé que você sabe?
- Eu tenho um bilhete pra você. – Cássio entrega-lhe e sai.
Sandra abre o bilhete, pedindo licença para a amiga e lê silenciosamente:
Maninha
Desculpe por tanto tempo sem dar notícias. Estou bem. Não vou dizer onde estou, já que estou aqui e lá. não paro em lugar nenhum. Mas quero que saiba que estou bem.Quando puder, telefono.
Beijos, Dani.
Cássio conversa com Daniel:
- Cara, onde é que você morava?
- No Solar Castelli, no Recreio.
- Não sente vontade de voltar?
- Eu não! Minha mãe me internou e se eu voltar, me interna noutro lugar pior! Além disso, cansei daquela hipocrisia! O casamento dos meus pais é uma farsa. Tudo é falso lá, todos só pensam em dinheiro.
- Quem mais mora naquele Solar?
- Bem...tem três mansões: a do meu tio Genaro, do meu pai e do meu tio Sérgio.
- Peraí...seu tio, este primeiro que você falou...É o empresário Genaro Castelli?
- É.
- Ele deve ter mais dinheiro do que todos, né?
- Com certeza.
- Cara, ‘cê já pensou que podia se disfarçar e assaltar o cara?
- Ah, sei não. Ele tem seguranças.
- Muitos?
- Ah, uns dois, três, conforme a necessidade.
- Vão com ele pra todo canto?
- Mais quando ele viaja.
Depois de sondar Daniel, Cássio esquematiza um plano mais eficiente e assim orienta os traficantes:
- Se ele tem seguranças e circuito interno de TV em casa e no prédio da firma, os dois lugares estão eliminados.
- Cumé que a gente vai conseguir alguma coisa?
- Gente, eu tenho amigos na “polícia”
- Ah, já entendi. “Polícia!” – o comparsa entende ao que Cássio refere-se.
Um policial corrupto à paisana, faz a ronda nas proximidades do Solar Castelli informando aos traficantes os passos de Genaro para por o plano em ação.
Sandra, apreensiva conversa com Suzana:
- Daniel tem se comunicado com você?
- Não. Só deixou o bilhete dizendo que estava bem.
- Quem deu o bilhete?
- Um conhecido dele, eu nunca vi.
- Ele não vai agüentar muito tempo sem se comunicar.
- Mas ele some um tempão! Meu consolo até então é saber que ele tá vivo.

domingo, 30 de maio de 2010

CAPÍTULO XXI

LANÇANDO AS SEMENTES
As meninas arrumam suas coisas para ir para o retiro e Suzana resmunga desde que acorda até o momento da partida. Sandra e Sônia vão numa boa, pensando em curtir um lugar diferente.
Ivan vai também a pedido de Lúcia, e é revistado por Vitor, que descobre uma maquininha de jogos escondida que guarda até que acabe o retiro.
Durante o passeio de ida na van cor de vinho de Vitor, na qual viajam ao todo 12 pessoas, Suzana fica emburrada e chega a dormir. Sônia, apesar de curtir o passeio, também dorme, pois o balanço do veículo a embala. Na chegada, no fim da tarde uma surprêsa:
- Rick! – exclama Sandra
- Rê! – Sônia vibra ao vê-lo
- Essa não! – Suzana reclama ao ver Rodrigo.
- Suzana! Quer parar de ser antipática! – Sandra chama a atenção da prima
- Ah! É isto mesmo! Tinha que aparecer esse X 9!
- Ele quer o seu bem! Devia pensar nisto invés de dar ponto pra esses moleques que querem te usar! Você gosta de ser maltratada! – Sandra repreende
- Não enche! – Suzana sai batendo o pé, procurando o quarto onde vai ficar. Quando acha, olha em redor pensando que ninguém a está observando e tira da mochila um frasco de perfume que começa a beber. De repente, entra Sandra e ela rapidamente enfia o frasco de volta na mochila.
- O que você tava fazendo?
- N-nada...
- Deixa eu ver o que você botou aí, você tava bebendo!
- N-não...
- Suzana, deixa eu ver!
Sandra insiste e Suzana trava uma luta com a prima, que reage, mas as duas são contidas por Bertinha e Celinha que passavam perto e entram no quarto.
- Meninas, o que é isso? – Celinha repreende as duas e Bertinha a ajuda a separar as primas.
- Ela tava bebendo! – Sandra entrega.
- Como? Não tem bebida aqui! – observa Bertinha abrindo a mochila de Suzana.
- O que você tava fazendo, Suzana? – pergunta Celinha mansamente, embora firme.
- Eu...eu...me ajuda! – Suzana abraça-se com Celinha aos prantos
- Suzana, – Celinha a consola – nós queremos ajudar.
- Suzana, o que eu estou vendo aqui é um frasco de perfume. – Bertinha repara abrindo a mochila de Suzana – Você tava bebendo perfume?
- Eu...eu... – Suzana quase não consegue falar, com a voz embargada
- Suzana, o nosso pai foi alcoólatra – diz Celinha – Eu já o vi beber perfume uma vez. Você tem uma doença, mas tem cura. Jesus pode te curar. Dá uma oportunidade a Ele.
- Eu não quero saber de Jesus! Me deixem em paz!
- Suzana, não fica assim, se acalma. Você tá muito revoltada. – Celinha argumenta.
Suzana chora compulsivamente, nervosamente.
- Você aceita que a gente a ore por você? – Bertinha pergunta
- Tá...
Bertinha ora impondo as mãos sobre a cabeça de Suzana que fica sentada na cama, enquanto Celinha, sentada ao seu lado ora colocando a mão em seu ombro.
- Senhor, tu que és misericórdia, amor e justiça. Sê com a Suzana, Pai. Que todo este espírito de bebedeira seja quebrado, derrotado que sejam destruídos agora todos os principados e potestades e ela seja liberta. Espírito de bebedeira, de depressão de angústia, em nome de Jesus, sai!
- Aaaai! – Suzana grita pouco antes de Bertinha retirar a mão de sua cabeça.
- Que foi? – pergunta Bertinha.
- A minha cabeça foi esquentando enquanto você orava e pouco antes de você tirar, parecia que tava queimando.
- Isto é poder de Deus. – Celinha observa.
Suzana e as outras primas ficam espantadas, sem entender. Suzana se acalma e arruma suas coisas no quarto em que fica com as primas e só sai para o jantar e depois para o culto. Logo que inicia o louvor, Suzana sente um incômodo, uma irritação incontrolável. Levanta-se e diz para Sandra que está ao seu lado:
- Não agüento mais ficar aqui dentro, quero sair!
Sandra assusta-se e vai atrás da prima, sendo seguida por Sônia. Lá fora, Sandra procura ajudar a prima.
- Que foi, Sú?
- Não sei...tô sentindo uma coisa estranha...aquela música me irritou... – Suzana responde ofegante
- Sú... ‘cê não tá bem. – Sônia preocupa-se.
- Eu preciso de um pouco de ar...Vocês não precisam ficar comigo se não quiserem.
- Nós vamos ficar aqui sim! – decide Sandra. – Não vou deixar você sozinha pra fazer besteira como há pouco!
- Eu tô me sentindo vigiada! – Suzana impacienta-se
- Lamento, mas você não dá outra alternativa. – Sandra permanece firme.
No jantar, Suzana não fala uma palavra. Vitor repara que as outras sobrinhas estão tensas e Rodrigo angustiado.
Durante a noite Suzana dorme tranquilamente e Sônia não tem o sono tão profundo como de costume, acordando sozinha, sem precisar que ninguém a chame.
Ao sair do quarto, Sandra encontra Rodrigo e conversa com ele:
- Oi, Rodrigo.
- Oi, Sandra.
- Você tá gostando?
- Tô né...
- Ih...este tô não foi muito convincente.
- É...
- Rodrigo, você é persistente, cara. Outro no seu lugar já teria desistido.
- Ai...eu não sei por que, mas a Suzana pra mim é especial.
- Eu mesma não sei dizer o que aconteceu com ela. Minha mãe diz que isto é normal em adolescentes, mas eu acho que ela tá muito inconstante, não é mais a mesma que eu conhecia. Há menos de um ano a gente fazia desfiles de brincadeira no quarto dela, vestia camisolas, roupas de verão, de inverno. A gente era muito mais unida.
- Você acha que ela se afastou muito de vocês?
- Agora nem tanto, mas ainda não é como antes.
Todos são chamados para o culto matinal rápido que se dá antes do café da manhã. Novamente Suzana não consegue ficar. As primas vão atrás dela. Suzana senta num banco no jardim.
- Será que vocês não vão me deixar em paz? Eu não tô precisando de babás, não, gente! – Suzana reclama
- Suzana, não quer ficar no culto, tudo bem. Mas, você não se enturma, se isola. Tem gente legal aqui. Por quê não se acerta com o Rodrigo? – Sandra argumenta
- Até parece que eu tenho alguma coisa pra acertar com aquele cara!
- Sú, para de fazer queixo duro! Cê quer falar com ele, para de se defender tanto!
- Não tô me defendendo de nada nem de ninguém! Não me enche o saco!
- Você sai do culto como se fugisse de um monstro. Seja sociável. – Sandra aconselha
- Eu...eu não sei, me incomoda ouvir essas músicas. Acho chato.
- Sú, o pessoal é simpático. Eu e a Sônia tamos aqui, tio Vitor, tia Helena e nossos primos também ‘tão.
- É isso mesmo, Sú, não são todos estranhos curte o que tem de bom. – Sônia reitera
Suzana continua emburrada e lança um olhar de raiva para Sônia por ter dado força à Sandra
- Sú, - prossegue Sônia – a Sandra é tão sua amiga que tá passando por cima dos problemas dela.
- Eu... – Suzana fica sem graça – eu sei Sandra, desculpe.
- Por que você não se entende logo com o Rodrigo? – Sônia sugere
Mal Sônia acaba de falar, Suzana avista Rodrigo saindo do culto conversando animado com uma garota alta de cabelo meio cacheado castanho claro e irrita-se
- Ele tá muito bem acompanhado! - Suzana quase explode de ciúmes.
- Tá morrendo de ciúmes, hein? – Patty, que vem chegando mexe com Suzana
- Ciúmes, eu?! Tá me gozando, pirralha?! Ridículo!
- Se esqueceu que eu durmo no mesmo quarto que você?
- E daí?
- E daí, olha o que eu gravei na minha filmadora, Sônia.
- Deixa eu ver...ih...- Sandra também vê
- O que vocês estão vendo aí?! – Suzana fica irada, imaginando do que se trata. - Deixa eu ver!
- Não deixo! – Patty sai correndo e Suzana corre para alcançá-la levando vantagem, pois suas pernas são mais longas. Alcança Patty, mas esta joga a maquininha para as outras, para Ricardo e Renato. Suzana passa uma rasteira em Renato e agarra a maquininha quase caindo no chão. As primas, que já sabem, aguardam a reação de Suzana, rindo. Suzana se vê filmada dormindo, falando durante o sono: “Rodrigo...Rodrigo...”
- Sua pirralha! – grita para Patty, que corre para dentro, encontrando o pai numa sala
- Pai, me ajuda! – pede agarrando-o
- Andou aprontando, é?
- Tio! Eu mato esta pirralha! – Suzana ameaça
- O que você fez? - Vitor pergunta para Patty em tom de repreensão.
- Eu...eu... – Patty fica sem saber o que falar, pois sabe que será punida
- Esta pirralha...tio, eu não vou falar em público pra todos ficarem rindo de mim!
Depois de ser acalmada pelas outras primas, Suzana vai até a cozinha beber água, pois está com sede depois da correria. Vitor, depois de descobrir a brincadeira de Patty, diz a esta:
- Agora é hora de ir à piscina. A senhorita vai ajudar na cozinha.
- Mas pai...
- Se não obedecer, vai ser pior depois!
Patty vai para a cozinha ajudar quase chorando e nem se atreve a discutir com o pai. Enquanto isto, Ivan entra na cozinha, no mesmo momento em que Rodrigo entra para beber um copo d’ água. Suzana, para se vingar, pois está louca de ciúmes de Rodrigo, solta um agudo possante e quebra o copo. Rodrigo espanta-se:
- Que foi isto?!
- Que pena... – Suzana diz ironicamente
- Deixa eu pegar uma vassoura para varrer estes cacos – diz a senhora que cuida da cozinha.
De repente Suzana grita:
- Aaaai! Uma baraaaaaaaaaaaaaata! Mata! Mata! – implora para Rodrigo
- Calma! – Rodrigo recomenda
A barata fica mais próxima e Suzana atira-se nos braços de Rodrigo com medo
- Bendita barata! – Rodrigo, ri do desespero de Suzana, abaraçando-a
- Tá se aproveitando do meu medo, é? – Suzana irrita-se afastando-se dele
- É de borracha sua otária! – Ivan mostra a barata que era arrastada por um linha fina na sua mão
- Moleque! Te mato!! – Suzana vai atrás do primo.
- Vamos parar com esta correria! Que houve agora? – Vitor chama a atenção de todos
- Tio, este garoto é uma peste! Me assustou com uma barata de borracha! Paguei o maior mico por causa dele!
- Já passou Suzana. – Rodrigo argumenta. – Vamos trocar o “dedinho de bem”?
- Palhaço! Você achou graça!
- Tá, desculpa.
- Não desculpo!
- Ivan, nós vamos ter uma conversinha. – Vitor avisa – Você, Suzana, precisa se controlar. A brincadeira foi de mau gosto, mas você já tem 15 anos.
- Mas tio, ‘tão curtindo com a minha cara!
- Não tiro a sua razão, mas não exagera. Você chegou aqui na maior apatia. Não consegue nem assistir um culto, fica de mau humor. Todos estão preocupados com você.
- É? Se estão mesmo preocupados, por que aprontam comigo? Você acha que tá certo o que a Patty fez? O que este pestinha aí fez?
- Ele é seu primo, tem nome e será punido como a Patty também foi. Mas isto não é motivo pra tanto descontrole de sua parte. Você tá com uma raiva que as veias saltam do seu pescoço.
- Ah, tio! Não tenho sangue de barata! Tô aqui por que minha mãe me obrigou a vir! Quero ir embora! Tô cheia!
- Depois nós conversamos, Suzana. – Vitor fala com autoridade.
Suzana vai para o quarto e Vitor recomenda à prima Angelina que a observe sem que ela veja. Suzana fica emburrada, deitada na parte debaixo da cama triliche virada de lado, abraçando o travesseiro apoiado na cabeça, na horizontal. Sandra entra no quarto para chamá-la:
- Sú, vem almoçar.
- Não.
- Deixa de bobeira, garota!
- Não tô com fome, me deixa em paz!
- Tá. Fica aí emburrada. Tchau.
Patty fica chateada com o que fez e pede ajuda a Celinha:
- Celinha, papai ainda tá muito zangado comigo?
- Um pouco.
- Será eu eu posso falar com ele?
- Eu peço a ele.
Celinha chama o pai e Patty se explica:
- Pai, eu sei que você ficou zangado comigo, desculpa.
- Não foi exatamente zangado com você pelo que fez, mas da maneira como fez.
- É...eu não pensei que ia dar tanta confusão.
- Patty, a sua prima tá numa fase muito difícil. Eu a trouxe aqui para que ela se recupere. Ela é alcoólatra. Só que pra Deus não há impossível e ela vai sair desta. O que você fez a irritou porque ela se sentiu invadida, exposta. Ela gosta do garoto, mas não quer admitir.
- Ela tá toda emburrada no quarto.
- E vai continuar, por que é muito teimosa. Você é um pouco também, mas nós damos limite e amor também. O pai não é amoroso com ela. Quando ela ficou com a gente há pouco, você foi mais amiga dela.
- Mas eu sou, pai. Sabe que é, eu fiquei irritada como que ela pode fazer pouco do Rodrigo, que é tão legal, tão meigo, respeitador e não assumir que gosta dele...acho que eu quis dar uma lição nela.
- Mas não pensou nas conseqüências, né?
- É...
- Você esqueceu o geniozinho que sua prima tem? Bem comparável ao seu. Se vocês fossem irmãs, mesmo com as diferenças que tem, não seriam tão parecidas.
- Ah, pai, mas um ataque igual ao que ela deu, eu não daria.
- Não mesmo?
- Ah, pai!
- Bóia! – a cozinheira chama.
Todos vão almoçar menos Suzana. Depois do almoço, preparam-se para dar uma caminhada. Sandra vai ver como está Suzana e volta logo.
- E aí, não quer ir, né? – Vitor deduz.
- Nem cheguei a falar com ela. Tá lá na cama dormindo como um bebê.
- Então vamos deixar o bebê lá. – Vitor decide
- Ela vai ficar chateada tio Vitor. – Rodrigo argumenta
- Rodrigo, não paparica a Suzana. Ela precisa parar de se sentir tão importante. Já se demonstrou interesse por ela, já foi chamada pra almoçar e não quis. Vamos deixá-la refletir.
- Mas ela vai ficar sozinha? – Rodrigo pergunta com pena
- Minha prima Angelina vai ficar, ela toma conta dela.
O grupo grande vai caminhar e demora um pouco. Antes que cheguem, Suzana acorda e estranha o silêncio. Ao sair para fora vê Angelina e pergunta:
- Prima, cadê o pessoal?
- Saíram pra caminhar.
- Ninguém me chamou?
- Você tava dormindo.
- Pôxa! – Suzana vai para dentro batendo o pé.
- Eta geniozinho! – Angelina exclama baixo.
Pouco depois, Vitor volta com o grupo que havia saído para o passeio. Angelina fala para o primo:
- Primo, um “furacão” passou por aqui batendo os pés de raiva.
- Ah, o “furacão Suzana”?
- Exatamente.
Mal Vitor acaba de falar e Suzana aparece:
- Tio, vocês, hein? Vão passear e me deixam aqui! Tá um saco! Tô detestando!
Vitor não fala nada, mas olha sério, fixamente para Suzana e somente pergunta:
- Acabou?
- Acabou o quê?
- O “show”?
- Que “show”, tio?
- Que você está dando.
- Ah, que graça! Vocês me deixam aqui e eu tenho que engolir calada?
- Desde que você chegou só abriu a boca para reclamar. Se isolou, não quis ir almoçar. Se quiser se envolver em alguma atividade, manifeste o desejo.
- Eu não tenho nada pra fazer aqui, por isso que fiquei com sono.
- Então, já que descansou bastante, vai ajudar na cozinha.
- Quê?!
- Isto mesmo o que ouviu. A Patty também ajudou e o Ivan até ajudou a lavar uma das piscinas.
- Mas... eu não sei fazer nada de cozinha!
- Sabe sim. Quantas vezes você e suas primas já fizeram bolos?
- Mas, tio...
- Não tem “mas”. Você não reclamou que não tinha nada pra fazer?
Sentindo-se vencida, Suzana vai até a cozinha ajudar. A cozinheira ouve a menina fungando e pergunta:
- Tá chorando, gatinha?
- Não...é a cebola.
Passado algum tempo, Helena vai à cozinha e avisa:
- Suzana, já ajudou bastante. Agora vai lavar as mãos que daqui a pouco a gente chama pro jantar.
- Tá...
Ainda chateada, mas começando a reconhecer que está sendo antipática, Suzana, que há algum tempo não abria o seu diário, resolve fazê-lo, lendo neste as seguintes passagens: “Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento, os quais sem freios e cabrestos são dominados; de outra sorte não te obedecem” (Salmos 32: 9); “Pois quem quer amar a vida e ver dias felizes refreie a língua do mal e evite que os seus lábios falem dolosamente” (1 Pedro, 3: 10).
Rio, 31 de maio de 2002
Oi, seu diário chato.
Você me fala coisas que eu não gosto de escutar, mas gosto de você, porque depois só escuta as minhas queixas. Eu achei dura esta mensagem de cima, a gente ser comparada a um cavalo, mas a que vem depois complementa. Eu sei que estou sendo uma chata. Acho que não quero falar com Rodrigo porque tenho medo. Mas também, ele já se enturmou, eu não sei se ele gosta mesmo de mim. Eu senti uma atração forte por ele logo que o vi, confesso, pois fisicamente ele é muito atraente. Depois, gostei da pessoa, mas também acho ele meio confuso, apesar de parecer mais seguro que eu. Será que eu sou mais complicada do que penso? Voltando sempre à estaca zero, né? Só uso suas páginas pra me encher mais de dúvidas. Eu vou tentar refrear mais minha língua,mas não sei se vou conseguir.
Até lá, novas complicações.
Tchau,
Suzana
- Suzana, tá na mesa. Você vem? – chama Sandra
- Vou, pode ir que eu já vou.
Suzana guarda apressadamente o diário, muito bem guardado pois teme que alguém possa lê-lo. Depois, vai até o refeitório e senta-se à mesa junto com as primas. Patty aproxima-se:
- Sú, me perdoa, priminha. Eu magoei você.
- Tá Patty, deixa pra lá.
- Eu não faço mais isso, prometo. Posso sentar com você?
- Claro.
Suzana consegue relaxar mais durante o jantar e depois assiste ao culto com alguma resistência. Ao fim deste, chama Vitor.
- Tio.
- Oi?
- Me desculpa tá? Eu fui boba, chata.
- Vamos ter uma reunião com outros adolescentes e jovens agora. Quer ir?
- Tá.
Mesmo relutante, Suzana vai. Vitor senta-se à mesa no meio dos outros sentados em círculo e inicia:
- Em 1º lugar, agradeço a presença de minhas sobrinhas e dos queridos três primos que aqui estão e em rápidas palavras quero explicar que esta reunião é realizada com a direção do Espírito Santo de Deus. Nós lemos a Bíblia na linguagem de hoje que a Júlia vai distribuir para mim.
Júlia é a garota que Suzana viu com Rodrigo. Sente-se um pouco incomodada com sua presença, mas determina-se a ficar. Sorri amarelo para ela quando esta lhe entrega a Bíblia com um largo sorriso.
- ‘Brigada... – balbucia quase entre os dentes
- Nós vamos ler um trecho da Palavra de Deus, – Vitor prossegue – depois alguém poderá pedir a palavra e eu darei prioridade aos que estejam aqui pela primeira vez. Vamos todos abrir em Provérbios 23: 29 – 35. Vitor ora e depois inicia a leitura, lendo o primeiro versículo:
- Quem é que grita de dor? Para quem são as tristezas? Quem é que vive brigando e se queixando? Quem é que tem os olhos vermelhos e ferimentos que poderiam ter sido evitados?
- É aquele que bebe demais e anda procurando bebidas misturadas. – Júlia prossegue
- Não fique olhando para o vinho que brilha no copo, com a sua cor vermelha e desce suavemente. – Renato continua
- Pois no fim ele morde como uma cobra venenosa – Sônia lê o versículo seguinte.
- Você verá coisas esquisitas e fará tolices – lê Ricardo
- Você se sentirá como se estivesse no meio do mar, enjoado, balançando no alto do mastro de um navio. – lê Sandra
- E-então...você dirá: - Suzana dá uma pausa, com a voz embargada pelas lágrimas, mas consegue mesmo com dificuldade terminar – “Alguém deve ter batido em mim; acho que levei uma surra...mas...não...me lembro. Por que não consigo levantar? – lê alto, como se as palavras viessem diretamente de seus lábios – Preciso de...mais...um...gole... – Suzana desaba a chorar e Sônia também chora, consolada por Renato.
- Alguém gostaria de colocar alguma coisa sobre o que foi lido? – Vitor pergunta
- Eu! – Suzana se manifesta, pois sente necessidade urgente de extravasar.
- A palavra é toda sua querida. – Vitor a anima - Nós costumamos dar 10 minutos, mas quem está aqui pela primeira vez tem direito a mais tempo.
- Eu..eu...
- Não tenha vergonha de chorar, meu bem. – Vitor a apóia
- Tio, eu tô sentindo que isto foi pra mim.
- Não houve intenção de invasão. Nós trabalhamos com a recuperação seja na área que for. Eu adquiri uma experiência com o A. A. e adaptei a dinâmica feita lá com o respaldo da Palavra de Deus.
- Eu preciso falar...tô me sentindo sufocada! Eu tenho dado trabalho pra minha mãe! Ela deve estar me achando uma péssima filha! Que vergonha! Desde o Réveillon, eu comecei a querer descontar toda a minha frustração na bebida. Eu ouvi meu pai se queixar de mim. Fiquei tão revoltada que comecei a beber tudo que via na frente. Eu queria chamar a atenção dele, mas ele nem soube. Ele é tão frio comigo! Eu perdi o meu “filhinho”...e ele debochou de mim! – Suzana chora alto aos soluços.
- O “filhinho” dela era o Lalau, o cãozinho de estimação – Vitor explica para as pessoas surpresas.
- O meu pai sempre me odiou. Ele me virou a mão na cara há pouco tempo, quando eu tava de porre. Eu quis que ele visse, eu provoquei. Eu acho que dói mais a indiferença do que um tapa! Prefiro que ele me bata do que me ignore! – Suzana chora muito e não consegue mais falar. Sônia também chora e Renato a abraça. Vitor carinhosamente vai até Suzana que permanece sentada, a abraça e fala:
- Meu amor, se precisar sair pra lavar seu rosto, pode ir. Eu gostaria que voltasse depois, seria muito bom.
Suzana vai acompanhada por Sônia. Elas se abraçam e lavam seus rostos. Ao voltarem ouvem um testemunho:
- Meu nome é Júlia. Eu também gostava de beber e o vício foi mais intenso entre meus 16 e 17 anos. Eu vou fazer 19. Também não me dava nada bem com o meu pai. Ele me criticava e eu também descontava na bebida. Eu era muito agressiva com minha mãe. Um dia eu fui à igreja com uma amiga e aceitei Jesus. Desde então eu não bebi mais. Meu pai não mudou tanto, mas já tenho um relacionamento melhor com ele e com minha mãe, porque me relaciono bem com Deus, desde que aceitei O Filho d’Ele como meu único e suficiente salvador.
Após a reunião, Suzana acha: “É claro que o Rodrigo tá paradão naquela garota.” Referindo-se à Júlia.
- Suzana! – Júlia a chama.
- Oi. – Suzana vira-se e a olha sentindo-se derrotada, sem condições de competir com a suposta rival.
- Cê tá melhor?
- Tô... foi bobeira minha.
- Expressar os sentimentos não é bobeira. Você é muito sensível. É isto que o Rodrigo aprecia em você.
- Hein?! – Suzana fica perplexa – Ele falou isto pra você?
- Nem precisaria dizer. Ele não fala em outra pessoa a não ser você, desde que chegou.
- É?!
- Tá vendo como você se desvaloriza? Ele parece ser muito legal. Disse que você andava chateada com ele. Eu particularmente acho que você tem medo de ter uma amizade mais profunda com ele. Eu não costumo me enganar. Ele é um menino diferente, não se aproveita das garotas.
- Ele...andou vacilando comigo.
- Se ele vacilou deve ter se arrependido. Se não, não falaria de você com tanta ternura.
- Ternura?
- É. Ele disse que você é estourada, mas que por dentro desta pantera, tá uma gatinha dengosa.
- Pôxa...
- Ficou vermelha, hein?
- Ah, para! – Suzana ri sem jeito
- Suzana, alguém gostaria de falar com você – Vitor avisa. Logo depois aparece Rodrigo
- Suzana...meus parabéns.
- Ué...parabéns de que?
- Por ter tido coragem de botar pra fora seus sentimentos. Sensibilidade é uma qualidade.
- Eu tô meio sem graça. Eu tive vergonha de chorar.
- Você foi autêntica. Poucas pessoas tem coragem de expressar que precisam de ajuda, que sofrem. Eu quero também me desculpar se chateei você. Mesmo que eu tenha parecido intrometido é por que gosto muito, muito de você.
- Eu...também queria me desculpar. Eu fui grossa com você muitas vezes.
- Vamos esquecer, vamos recomeçar.
- É...a gente deixou que outras pessoas atrapalhassem.
- Bobeira da gente né?
- É... sabe que mesmo que tenha doído, aquela reunião me fez bem.
- Você precisava se abrir.
- É. Rodrigo, me desculpa, mas acho que foi tanta emoção que eu fiquei cansada. Vou tomar um banho e deitar. Amanhã será um novo dia. Boa noite.
- Boa noite.
Quando Suzana vai se virando de costas para ir para o quarto, Rodrigo a chama:
- Ah, Suzana!
- Oi? – responde ela virando-se para ele
- Bom banho! Sonhe comigo e não caia da cama!
- Ah! Você deve ter conversado muito com o tio Vitor! – Suzana ri, percebendo que o menino aprendeu as brincadeiras do tio.
- Com certeza.
- Tá Rodrigo. Amanhã a gente conversa mais, tá?
- Tá. – Rodrigo olha para lá com um olhar terno.
- Tchau... – Suzana despede-se.
- Tchau...- Rodrigo mantem o olhar fixo em Suzana e ela vai até chegar à porta do quarto andando de costas, também olhando fixo para ele. Rodrigo suspira e Suzana também, logo depois que entra no quarto encostada na porta.
- Alguém viu um passarinho verde. – Sônia observa
- É mesmo. - Sandra concorda
- Ah! – Suzana dá conta que as duas estão no quarto – Vocês tavam aí?
- Nós entendemos por que não nos viu. Tava sonhando acordada com seu príncipe encantado. – Sandra graceja
- Ah, para de “botar pilha!”
- Sú, eu vou mostrar uma coisa que o Rick gravou e que eu passei pra minha filmadora. – Sandra avisa
- O que?
- Vem aqui, num canto discretamente e controle-se, tá?
Suzana olha na filmadora e ri com Sandra. Ricardo gravou o primo Rodrigo dormindo, falando durante o sono:
- Suzana...Suzana...gatinha...
- Você tá vermelha? Ele é que vai ficar se alguém mostrar pra ele.
- Não faz isto. Fica entre a gente.
Suzana vai dormir feliz e novamente seu sono é tranqüilo. Sente que tirou um peso de si por ter desabafado na reunião. Sandra acorda durante a madrugada e vê a prima dormindo tranqüilamente.
- Mãe...te amo...tô com saudade... - Suzana murmura durante o sono
Na manhã seguinte Suzana e as primas vão assistir o culto. Embora não goste, Suzana consegue ficar até o fim. Pouco depois, todos vão para a piscina.
Na volta, no domingo ao cair da tarde, os respectivos “trios em R e S” conversam. Vitor deixa primeiro o trio masculino na Barra. Quando se despede das sobrinhas, deixa uma palavra de alerta para Suzana:
- Evite o primeiro gole.
- Vou lembrar disto, tio. ‘Brigada. Eu te amo.
- Também te amo muito.
Ao entrar e ver Soraya no jardim, Suzana joga-se nos braços da mãe:
- Mãe...que saudade, te amo.
- Vou mandar você pra fora mais vezes. – Soraya brinca com a filha observando seu carinho
- Ai...tanta coisa aconteceu. – diz Suzana
- Foi bom os meninos terem ido. – Sandra comenta.
- Claro que foi. – Heloísa concorda olhando com cumplicidade para a filha.
- Foi bom pra nós, sim, mas melhor ainda pra Suzana – conta Sônia – Ela e o Rodrigo se reconciliaram.
- Ah, Sônia! – Suzana fica ruborizada.
- É mesmo? – Soraya anima-se com a novidade.
- Temos uma “novela” pra contar. – enfatiza Sandra
- Com certeza com final feliz. – Soraya deduz
Suzana prepara-se para deitar quando ouve uns acordes de violão e vai até a janela. Para sua surprêsa, vê Rodrigo e os primos cantando. Embevecida ouve com atenção e tem a certeza dos sentimentos do garoto por ela.
- Ai......Você não existe cara! – Suzana –– grita para Rodrigo - Você foi inventado!
- Inventado pra você! – ele responde.
Os adolescentes apaixonados esquecem que é hora de deitar. Para isto, há sempre um jeitinho materno:
- Filha...filha! – Soraya chama Suzana
- Oi! Nem percebi você chegar.
- É natural. Você só tá vendo o Rodrigo na sua frente. Já é hora de deitar, você tem aula amanhã.
- Ah...deixa só mais um pouquinho.
- Só um pouquinho, mas deixa eu avisar aos cantores.
Soraya chega à janela:
- Meus parabéns! Que bom que ainda existe isto.
- Boa noite dona Soraya.
- Boa noite Rodrigo. Boa noite meninos.
- Boa noite – respondem os outros dois.
- Queridos, a idéia foi maravilhosa, mas amanhã todos vocês terão aula. Suzana tem que estar em forma pra treinar a coreografia que você tanto gostou, Rodrigo.
- Mãe... – Suzana fica sem graça.
- Com certeza. Posso cantar mais um número? – Rodrigo pede
- Só mais um, tá? - Soraya cede
- Tá. – Rodrigo aceita
- Tchau. – Soraya despede-se
- Tchau. – respondem os três.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

CAPÍTULO XX

CRESCE A LUTA ESPIRITUAL
Dois dias depois do debut de Sônia, no domingo, o Trio em S vai ao Barra Shopping.
Enquanto isto, no hospital público para onde foi Daniel, um médico indaga a outro:
- Cadê aquele cara que chegou mal aqui na madrugada de 6ª pra sábado?
- Ah, já foi liberado.
- Ele tava bem?
- Parece que sim.
- Como assim, parece?
- Ah, colega, então você não sabe que estes drogados não têm jeito?
- Que visão mais pessimista!
- Pessimista não, cara! É tudo igual. Você cuida, eles melhoram, daí a pouco, na primeira esquina eles encontram um traficante e se entopem outra vez!
Daniel que saíra sem rumo, encontra um “amigo”, companheiro de noitadas.
- Dani, cara. Você por aqui?
- Oi...
- ‘Cê tá esquisitão, cara! Que houve?
- Tô precisado de um abastecimento.
- Cara, lá no Shopping tem um fornecedor que marcou comigo.
- Como é que eu vou pagar? Tô durão.
- Deixa comigo.
Ao chegar ao shopping, o que Daniel não esperava é que o fornecedor fosse alguém conhecido.
- Dani Castelli!
- Você?
- É, cara! E aí, tá me devendo, aquele celular não foi o bastante pra saldar a dívida.
- Cara, eu tô na maior fissura!
- Te vira!
- Peraí! – Dani avisa quando avista Sônia que no momento está sem as outras por perto.
- Sônia, - Daniel agarra a prima num ímpeto, - as meninas estão aqui?
- Estão numa loja aqui perto. – Sônia responde apavorada
- Não diz que me viu. Me dá substância, agora!
- Cê tá louco?
- Tô, tô sim e se você não me der eu te estrangulo aqui agora! Me dá este celular também!
Daniel tira todo o dinheiro que tem na bolsa de Sônia que fica paralisada. Daniel vai até o traficante.
- Tá aqui, cara. Não cobre tudo, mas ajuda.
- Vamos lá pra fora conversar.
- Cara, ‘cê tem que me arrumar um.
Lá fora, Daniel tenta negociar com o traficante que acaba cedendo:
- Eu enrolo o chefe. Te arranjo mais em troca de clientes.
- Falou.
Suzana e Sandra que estavam numa loja voltam. Sônia está estática, sem conseguir dizer uma palavra.
- Sônia, ‘cê tá estranha, o que houve? – pergunta Suzana assustada.
- É Sônia, o que foi? – Sandra também se preocupa.
- Gente...o...Dan... – Sônia não consegue dizer mais nada e desmaia.
- Sônia! – exclamam as duas juntas.
Suzana ajoelha-se e tenta reanimar Sônia enquanto Sandra pensa no que ouviu a prima tentar dizer.
- Suzana, ela viu o Dani. Ela tentou dizer o nome dele. Eu sei que o que ela viu não foi coisa boa.
- Sandra, não dá pra pensar nisto agora. Precisamos de ajuda.
Um segurança as ajuda a socorrer Sônia e juntos vão até o carro.
- O que foi? – Alfredo espanta-se ao ver Sônia desmaiada.
- Estamos tentando descobrir. – Suzana responde.
- Vamos pra casa, Alfredo. – Sandra pede. - No caminho eu conto.
No carro, Sônia volta a si e lembra-se do ocorrido. Conta às primas e chora muito. Sandra fica frustrada por não ter visto o irmão e conta o fato à mãe. Sônia também conta à Lúcia que lamenta por saber a que ponto Daniel chegou.
Suzana, a menos atingida com o fato, vai até às “dependências” de seu “filhinho”, levar sua comida:
- Lalau, filhinho, aqui tá o seu papá. – o cãozinho está de olhos fechados não se mexe.
- Lalau, acorda, filhinho... – o cãozinho continua imóvel e Suzana estranha, tocando-lhe, sentindo-o frio.
- Lalau...Lalau...Lalau! LALAU! Nãaaaaaaao! – Suzana chora desesperadamente não querendo acreditar que aquele animalzinho a quem dispensava tanto amor havia morrido.
- Suzana! – Alfredo ouve os gritos intercalados por soluços de Suzana. – Que foi filhinha?
Alfredo observa e entende o que ocorreu e abraça carinhosamente Suzana. Soraya também ouve e vem apressada
- Suzana! Que foi filha?
- O Lalau dona Soraya – responde Alfredo
- Vem, filhinha, vem com a mamãe. - Soraya entende e também abraça a filha, levando-a para dentro.
Suzana fica no quarto, deitada na cama, imóvel, sem dizer uma palavra, preocupando a mãe e às primas.
- Filha, não fica assim. – Soraya acaricia a filha, tocando-lhe na testa e percebe-a quente.
Soraya chama o médico que a tranqüiliza assegurando-lhe que trata-se de fundo emocional.
No dia seguinte, Suzana não vai à aula e no recreio, Rodrigo encontra Sandra:
- Oi, Sandra, a Suzana não veio?
- Ai, nem te conto.
- Que foi?
- Rodrigo, o Lalau, o “filhinho” dela, morreu ontem.
- Pôxa...
- Ela tá arrasada. Teve até febre, não dormiu direito, teve pesadelos, acordou aos prantos.
- Sempre que ela tá começando a reagir alguma coisa acontece pra derrubar. Parece até “encosto!”
- Ai, você também?
- Eu também o que?
- Meu tio Vitor, no aniversário da Sônia tava falando em diabo, você agora fala em “encosto!”
- Olha, Sandra, eu falei por falar, mas você não acha que existe o mal neste mundo?
- Ah, isto eu acho.
- Eu não posso afirmar que exista diabo com chifres, com tridente, orelhas pontudas vermelhas, mas o mal existe.
- Eu vejo tanta coisa ruim que continuo me perguntando se Deus existe mesmo.
- Eu vejo Deus em pessoas do bem, que superam os problemas com perseverança.
- Eu vejo os bons sentimentos nas pessoas, sim. No tio Vitor, na tia Helena, na tia Soraya, na minha avó Marisa na avó Dete. Também vejo isto em você, nos seus primos.
- Então, sua visão do bem tá melhorando!
- É, mas, sabe, Rodrigo, eu amo a Suzana, mas acho você muito paciente. Ela tá um saco.
- Dá um tempo pra ela, Sandra, ela vai sair desta.
- Você fala com tanta certeza que até me impressiona.
- Vai, sim. Sandra, pode ser que a morte do “filhinho”, tenha acontecido pra dar uma reviravolta na vida dela.
- É?!
- Ela jogava muito da carência dela pra aquele bichinho.
- Pior que sim. Ela tratava o Lalau que nem gente.
- Ela tem complexo de rejeição, tem medo de se entregar às pessoas. Ela sabe que pode contar com você e a Sônia, seu tio Vitor e outras pessoas. O problema dela é o pai.
- “Altas psicologias!” Olha Rodrigo, o papo tá bom, mas eu tenho que subir, o sinal tocou.
- Tchau! – Sandra despede-se.
- Tchau, Sandra.
Voltando da escola, Sandra vai primeiro para sua casa e depois vai até a casa de Genaro saber de Suzana Suzana sobe até o quarto da prima e chega perto dela que está deitada de lado na cama, imóvel.
- Sú...minha pantera linda...eu sei que ‘cê tá sofrendo, mas reage, sai desta cama, você tava criando uma coreografia linda pra gincana. Sai dessa, Sú.
Suzana olha para a prima, mas logo desvia o olhar como quem diz: “Você não me entende.”
- Pensa na sua mãe que perdeu a mãe dela tão cedo. – Sandra fala com mais firmeza - Compara sua situação com a dela. Minha mãe perdeu mãe e pai num espaço de menos de dois anos! Para de se sentir a pessoa mais infeliz do mundo, porque você não é! – Sandra olha a prima bem no fundo dos olhos. Esta fixa o olhar nela com uma certa revolta, mas não diz nada, pois no íntimo sabe que a prima tem razão.
Mais tarde, Soraya sobe ao quarto de Suzana e exige uma reação da filha:
- Suzana, filha, você já está bem, não está mais com febre. Amanhã vai pro colégio.
Suzana, que estava encolhida deitada na cama agarrando um travesseiro na horizontal e com outro que apoiava a cabeça, senta-se na cama e olha a mãe com espanto.
- Não fica com esta expressão indignada. Já deixei você viver seu luto. Agora, é andar pra frente.
Continuando a sentir-se indignada, Suzana deita-se bruscamente na cama, como em sinal de protesto, como quem não é entendida. Soraya não se abala, mantem-se firme e prossegue:
- Sei que tá se sentindo incompreendida, mas, ouça bem: não se joga a carência toda da gente num cãozinho de estimação.
- Não fala assim do meu filho! – Suzana protesta. Embora sentisse vontade de rir, Soraya segura-se sem se deixar levar pela reação da filha.
- Quer você aceite ou não ele era um cãozinho. Você vai à escola amanhã e vai continuar ensaiando a coreografia e voltar às suas atividades normais. A vida continua.
Mesmo indignada com a exigência da mãe, Suzana não perde o senso de justiça e cumpre suas ordens. Nos dias que se seguem, o seu estado de apatia no colégio preocupa professores e colegas mais chegados.
Sandra também demonstra a preocupação com o irmão e Ricardo a procura no período do intervalo na escola:
- Sandra, você não quer conversar um pouco? Desabafa, eu tô sentindo que você não tá bem.
- Ai, Rick! – Sandra abraça Ricardo encostando sua cabeça no ombro dele e chora.
- Chora que faz bem, não guarda, não, fala.
- Rick, eu tô cansada de ficar bancando a forte. Suzana tá fazendo o maior drama por causa de um cãozinho de estimação que morreu e eu sem saber do meu irmão, imaginando se neste momento ele possa estar vivo.
- Mas você contou que o viram no Shopping.
- Eu não vi, ele tomou dinheiro da bolsa da Sônia, tomou o celular e sumiu. Parece que tava fugindo de alguém.
- Uma pista você já tem. Se ele há poucos dias tava na Barra, não deve ter ido pra muito mais longe.
- Eu sei lá...no mesmo dia falei com meu pai, ele saiu de carro procurando o Dani, mas não teve o menor sinal dele. Já perguntou na faculdade, mas ou ninguém sabe, ou tá mentindo muito bem.
- Fico triste por você. Eu quero ajudar no que eu puder. Posso ajudar a procurar também.
- Você já ajuda muito me ouvindo. – agradece Sandra com um sorriso correspondido por Ricardo.
Ao chegar ao Solar, Suzana ia para o quarto, mas recua ao ouvir uma discussão próxima ao escritório de Genaro:
- A nova frescura dessa menina agora é aquele cachorro! – critica Genaro.
- Genaro, para com isso! Ela já foi ao colégio, tá reagindo. – Soraya argumenta.
- Já era hora de voltar pra escola! Vê se pode! Ficar com febre por causa de um bicho!
- Você, hein? Pensei que estivesse um pouco mais sensível. Como você é implicante!
- Eu não tenho saco pra estas coisas! Eu já tive e tenho cachorros e sempre tratei como cachorros!
- Não adianta argumentar com você, hein, Genaro? Por quê você insiste em ver tudo de uma maneira tão fria?
- Eu sou prático. Meu pai criou os filhos para enfrentar a vida! Eu não aceito na minha família um drama desses por causa de um animal! Era só o que faltava!
- Genaro, eu não vou ficar discutindo com você. Espero que ainda tenha a capacidade de refletir.
Soraya dirige-se à porta. Suzana deduz que ela sairá do escritório e apressa-se em subir.
Suzana sente um ódio profundo do pai. No quarto, pega o diário como uma válvula de escape, para despejar nele toda sua indignação. Lê as passagens: “Porque o que sucede aos filhos dos homens, sucede aos animais; o mesmo lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego de vida e nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais; porque tudo é vaidade” (Eclesiastes, 3: 19); “O homem revestido de honrarias, mas sem entendimento, é antes como os animais que perecem” (Salmos, 49: 20), e começa seu relato escrevendo com raiva:
Rio, 24 de maio de 2002:
Eu tô cheia! Cheia das críticas do meu pai, cheia de tudo! Eu não posso nem sentir a morte do meu filhinho, fico engolindo os deboches, o desrespeito do meu pai! Te nho vontade de matá-lo! Eu odeio ele! Que saco! Eu tô aqui, chorando, mas ele não vai ter o prazer de me ver infeliz! Eu vou...
Naquele exato momento toca o telefone e Suzana atende com o tom de voz agressivo:
- Alô!
- Suzana? – Joana está do outro lado da linha.
- É.
- Tudo bem?
- Tudo...quer dizer....ah, desculpa Joana, não é nada demais, não. Alguma novidade? Você não me liga faz tempo.
- Eu gostaria de convidar você e as suas primas pra uma reunião aqui na casa da Glória, a minha prima em Ipa. Não tem hora pra acabar. Os pais dela deixaram, vão sair pra deixar o pessoal mais à vontade, desde que haja ordem.
- Ah...tá. eu falo com a minha mãe depois com as meninas.
Enquanto isto, Sandra em seu quarto abre seu diário lendo antes os trechos bíblicos: “Porque um menino nos nasceu, um filho sê nos deu; o governo está sobre os seus ombros e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Isaías, 9: 6); “Já não falarei muito convosco, porque aí vem o príncipe do mundo e ele nada tem em mim” (João, 14: 30). Sandra inicia seu relato refletindo sobre o que leu:
Rio, 24 de maio de 2002:
Meu querido diário:
A Suzana tá vivendo ainda a perda do Lalau e eu apesar de entender, mesmo achando um exagero, tô noutra. Claro que eu já vivi perdas e sentiria a falta de um cãozinho de estimação, mas não desse jeito. Tudo é passageiro, mesmo o que é bom. Eu gosto de ser prática.
Outro dia, tio Vitor falou de Deus e eu confesso que tenho ficado muito descrente pelos últimos acontecimentos. Poucos dias depois, o Rodrigo que me parece ser neutro, me disse acreditar no mal. Isto me fez refletir, porque eu não rejeito o que os outros dizem, ainda mais se conheço a pessoa e sinto que tem uma boa visão da vida, das coisas. Agora eu leio estas passagens e me questiono: se existe este Deus, por quê Ele permite que este “príncipe do mundo” continue fazendo tantas maldades? Eu quero justiça, porque vejo tanta coisa errada! Onde estará o Dani? Me pergunto se neste momento ele tá vivo. Meu pai já tentou achá-lo e não conseguiu. Se Este Deus que tio Vitor, tia Helena e a minha avó crêem realmente existe, eu preciso de uma prova pra crer n’Ele, no Seu poder.
Te mais,
Sandra.
Com as autorizações de suas respectivas mães, as meninas vão à reunião. Soraya acha que a filha precisa se divertir. Soraya está lendo o jornal enquanto Genaro deita-se mais cedo por causa de uma reunião de negócios na manhã seguinte. O telefone toca e ela atende:
- Alô?
- Cunhada!
- Oi, Vitor, tudo bem?
- Tudo ótimo. Como é que está a Suzana?
- Ah, bem melhor. Aceitou até um convite de uma amiga pra ir a uma reunião com as meninas.
- Sei...eu estou ligando pra fazer outro convite.
- Diga.
- Neste próximo feriado que cai agora na 5ª feira, dia 30, as escolas vão enforcar, pelo menos a da Patty vai.
- A das meninas também.
- Pois é. Eu queria convidá-las para um acampamento que vai ter agora neste período. A ida vai ser na 4ª feira à noite e a volta domingo à tarde.
- Eu depois pergunto à elas se querem ir.
- Aguardo resposta até a véspera.
- Tá. Eu ligo. Boa noite, cunhadão. Tchau.
- Tchau.
Vitor desliga e Helena pergunta:
- E então, amor, como foi?
- Ela não deu certeza de nada, mas eu sei que elas vão, em nome de Jesus.
Daniel não estaria muito longe. Andando pela Barra, um colega da faculdade, Alexandre, o vê e o chama:
- Dani! Dani! Vem, cá, cara!– o rapaz impressiona-se ao ver Daniel com a aparência de quem não toma banho há alguns dias.
Daniel fica com medo, não sabe se recua ou se vai até o colega e fica quase paralisado quando ele chega.
- O que você quer comigo?! Eu não fiz nada!
- Que é isto, cara? Eu quero te ajudar.
- Você vai me entregar pra polícia!
- Não cara. Você precisa de um banho. Eu tô alugando um apartamento pequeno aqui perto, vamos lá.
Apesar de desconfiado, com os olhos arregalados de pânico, Daniel acaba cedendo ao colega que fala mansamente:
- Vem, cara. Não fica com medo, eu quero te ajudar.
Daniel permanece imóvel mas o colega com jeito o convence e o leva de carro ao seu apartamento.
Enquanto isto, Suzana e as primas estão em Ipanema, na reunião que Joana convidou. Suzana chama a atenção de um garoto, Tiago, amigo da anfitriã. Tiago não tira os olhos de Suzana e pergunta a um amigo:
- Conhece aquela “gataça?”
- Não.
- Olha, se ela não tiver namorado, vai passar a ter. Se tem, vai ter outro agora.
Tiago se aproxima de Suzana e os dois conversam. Joana comenta com a prima:
- Glória...a Suzana e o Tiago ‘tão num papo animado e eu chamei o garoto que tá a fim dela, o Rodrigo.
- Deixa, ué...a coisa vai ficar mais quente!
- Glória! O garoto é legal. Ele vai ficar magoado.
- Mas Joana, ele tá namorando a garota?
- Não, ela gosta dele mas é insegura. Por isso eu convidei o Rodrigo, pra ver se os dois se entendem.
- Mas eles já se conhecem há algum tempo e não rolou nada?
- Eles são diferentes, né, Glória?
- Eu acho que ele é um otário e ela tá investindo. Dei muito mais ponto pra garoto que não ficou esperando muito.
- Existem exceções. Se eu conhecesse um garoto como o Rodrigo, que gostasse de mim, eu daria muito mais chance a ele. Falo pela experiência que tenho hoje. Você fala assim porque nunca gostou realmente de alguém.
- O negócio mesmo é “ficar”. Tudo bem que essa garota não queira, mas ela não é mais criança.
- É? Ela só tem 15 anos.
- Menina...eu pensei que ela tivesse no mínimo 17!
- Ela já aparenta mais idade e tá usando salto alto e a roupa, maquiagem.
A conversa continua mais animada e a música convidativa à dança. Suzana e Tiago dançam músicas agitadas e...lentas, o que propicia um clima entre os dois que dançam abraçados e neste intervalo vão para perto da janela para conversar mais livremente. Tiago fica fascinado por Suzana e ela gosta de ser cortejada.
- Tá vendo lá? Tem um barzinho, vamos lá?
- Mas eu tô com as minhas primas.
- Ah, deixa elas pra lá, gata! Vamos curtir.
- Mas...como é que a gente vai sair assim?
- Ninguém vai notar. Tá escuro. A gente sai pelos fundos.
Sem ser notados, os dois silenciosamente saem pelos fundos. Joana dá pela falta dos dois e pergunta à prima:
- Cadê a Suzana? Não tô vendo nem ela nem o Tiago.
- Acho que os dois saíram.
- Mas...aonde será que eles foram?
- Ah! Devem ter ido perto.
Joana corre até a janela. Como está no 2º andar, vê Suzana e Tiago dirigindo-se ao barzinho. Procura Sandra e conta aonde Suzana e Tiago foram. Poucos minutos depois, chega o “trio em R”. As meninas cumprimentam seus pares rapidamente e pedem ajuda a Rodrigo:
- É aqui perto? Eu vou lá – Rodrigo mostra-se decidido
- Vê lá hein, Rodrigo, não vai arranjar briga com o cara. – Sandra alerta
- É bom ele ir mesmo! - uma garota na festa apóia - Ele já namorou a minha prima. Aprontou muito com ela.
- Já tô indo. – Rodrigo dirige-se para a porta, como se não visse mais ninguém nem nada em sua frente.
- Acho melhor a gente também ir lá. – Ricardo decide.
- Vamo nessa! – Renato concorda imediatamente.
Na porta do bar, Rodrigo recomenda aos primos:
- Me esperem aqui embaixo. É mais garantido. Se ela tentar escapar de mim, vocês ajudam.
Rodrigo sobe e não vê Suzana. Fica procurando e resolve esperar um pouco. Numa mesa no canto, Tiago conversa com um amigo que encontrou:
- Tiago, você tá namorando aquela gata que foi ao toalete?
- Quase. Tô investindo.
- Cara, cê sabe quem é ela?
- Por quê? Tô ignorando alguém importante?
- Você já ouviu falar na CASTELLI EMPRENDIMENTOS, do empresário Genaro Castelli? Ela é filha do cara.
- Você a conhece há muito tempo?
- Eu fui no início do ano à festa de 15 anos dela.
- Cê tá me dizendo que aquela “escultura”, aquela “obra prima”, aquele “manjar dos deuses”, tem só 15 aninhos?
- Disfarça que ela tá voltando.
Rodrigo esconde-se num canto, observando e repara que Suzana está meio tonta.
- Oi. – Suzana cumprimenta o amigo de Tiago.
- Este é o Wagner, esta é a Suzana – Tiago apresenta os dois, fingindo não saber que se conheciam. Suzana a princípio não se lembra de Wagner, mas tem idéia de já tê-lo visto antes.
- Você...eu já o vi em algum lugar.
- Claro, eu fui ao seu aniversário. Nossos pais se conhecem. Meu pai é o Davi Zenatti, empresário.
- Sei...
- Você tá bem? Seus olhos estão tão vermelhos – Wagner pergunta
- Se você não tá bem, podemos ir embora. – sugere Tiago um pouco preocupado.
- Agora que eu cheguei?! Eu vou é curtir muito! – Suzana fala alto, chamando a atenção de todos. Rodrigo não se contem e vai até ela.
- Suzana, v’ambora. – Rodrigo intima
- De onde é que você veio? – Suzana espanta-se ao vê-lo
- Eu fui convidado pela Joana.
- Esta agora! Cai fora, cara!
- Cara, você ouviu, te manda! – Tiago ameaça.
- Ah, é? Eu vou chamar tua mãe aqui! – Rodrigo adverte Suzana
- Cara, deixa a garota em paz! – Wagner também toma partido.
- Ih, qual é? A garota é menor, vocês deixam que ela tome um porre e ainda querem briga, é?
Também escondidos, Ricardo e Renato resolvem intervir em defesa do primo.
- Se é pra brigar, a gente entra na briga também! – Ricardo se manifesta.
- Não seja por isto! – Tiago levanta-se
- Cara, ‘cê não conhece o pai da garota. - Wagner, argumenta, sussurando ao ouvido de Tiago
- Esta agora tá boa! – Suzana ironiza – Vou ser disputada!
- Vamos parar de encrenca ou eu chamo a polícia! – avisa o dono do bar. – Se mandem daqui agora!
Todos são obrigados a sair e na rua, a discussão recomeça:
- Agora estamos na rua, cara! – Tiago desafia novamente.
- Cê tá mesmo a fim, hein? – Rodrigo não se intimida.
Wagner, tenta separar os dois que começam a brigar assistidos por uma platéia inerte na rua. Alguns, por medo, outros divertindo-se com o fato. Preocupada, Joana aparece com Sandra e Sônia:
- Gente, por favor, para com isto! – Joana pede
- Para gente! – Sandra reforça o pedido também aos gritos – É tudo culpa sua! – Sandra repreende Suzana, que tonta pela mistura que bebeu quando estava no banheiro do bar, já não consegue dizer nada e cai ao chão.
- Suzana! – Sônia grita
- Para! A Suzana desmaiou! – Joana grita com os rapazes, que encerram a briga. Rodrigo a pega no colo e leva para o apartamento de Glória.
- É mole?! Essa garota não podia escolher outra festa pra estragar, não? - Glória reclama
Sandra dá uns tapas em Suzana para reanimá-la, começando a bater de leve, depois com mais força.
- Ai! Que saco! - Suzana acorda, reclamando dos tapas
- Gente, me ajuda aqui – Sandra chama as outras para levantarem Suzana que está mais pesada devido ao seu estado e a levam para o banheiro. Sandra ajudada pelas outras, joga água no rosto da prima que grita:
- Para! Saco! – Suzana fica cada vez mais furiosa.
- Ô garota, dá um tempo! – Glória adverte. – Com esta altura toda, agindo como uma criança! Você hein, Joana?! Convida cada uma!
Saindo do banheiro, Suzana, raivosa, desconta em Rodrigo:
- Você tinha que aparecer, né?! Te odeio! – tenta avançar no garoto sendo segura pelas primas e por Joana.
- Eu fiz o que achei certo. – Rodrigo responde firme, seguro, com o olhar fixo em Suzana.
- Te mete com tua vida, cara! Eu te odeio! TE ODEIO!! – Suzana chora de raiva, mas Rodrigo não se abala.
- Você pode até estar com ódio de mim, mas ainda vai me agradecer. – Rodrigo continua seguro
- Vai esperando! Deitado, pra não cansar! – Suzana fica ainda mais raivosa.
Alexandre consegue contactar com Paulo pelo telefone, informando que Daniel está em seu apartamento.
- E aí, cadê ele? - Paulo pergunta ao chegar
Alexandre faz um sinal de silêncio com o dedo, alertando que Daniel pode ouvir e depois sussurra:
- Ele tá lá no quarto dos fundos. Espera que eu vou chamar.
Ao entrar, Alexandre tem a impressão de que Daniel está deitado, pois vê um volume debaixo das cobertas.
- Dani...Dani... – chega perto, cutucando-o de leve, mas para sua surpresa, Daniel não está lá.
- Que foi? – Paulo pergunta quando Alexandre volta à sala
- Dr. Paulo, me desculpe, mas eu acho que o Daniel deve ter ouvido o meu telefonema escondido ou percebeu alguma coisa. Ele fugiu. Mas ele não deve ter ido muito longe. Podemos procurá-lo.
- Tá, quem souber primeiro avisa o outro.
As três primas no início da manhã são levadas para casa por Alfredo. Suzana dorme durante o percurso. Quando chegam, Soraya que havia acordado mais cedo percebe pelos olhos vermelhos da filha que está de ressaca.
- Oi mãe... - Suzana fica sem graça ao vê-la.
- Oi, mãe?! É só isto que tem a dizer? Francamente! Vendo você assim, eu me segurei; primeiro, tive vontade de te trazer arrastada pelos cabelos; depois, quis te dar umas palmadas; por fim, quase te dei uns puxões de orelha! Eu acho vergonhoso querer tratar você como criança, tanto pra você quanto pra mim!
- Me perdoa, mãe. – Suzana tenta chegar perto, mas Soraya é dura e recua.
- Não tem refresco não, senhorita! Suba, tome um banho e vá pra cama curar esta ressaca! Vê se não faz barulho pra seu pai não acordar! Mais tarde nós conversamos e vou impor a você os devidos limites que está precisando!
Suzana dorme até a tarde. Acorda deprimida com dor de cabeça e espera a sanção da mãe, que comunica:
- Suzana, até segunda ordem, está proibida terminantemente de ir à qualquer festa! Ai de você se desobedecer!
No colégio na semana que se inicia, alguns colegas são cruéis com a menina, pois estiveram na festa na qual se deu sua última bebedeira. Uma colega conta à Luciana, na hora do intervalo:
- A Suzana na festa da Glória, prima da Joana. Saiu escondido com um garoto que tava lá, foi a um barzinho e tomou o maior porre!
- Ela é uma beberrona, mesmo! – Luciana zomba sem saber que Suzana está perto ouvindo e surpreende-se quando é agarrada por esta pela blusa.
- Vou te fazer engolir o que falou, sua cretina! Você é a última que pode falar!
- Ih! Me solta!
- Sua falsa! Te arrebento a cara!
Sandra, Sônia seguram Suzana enquanto outras separam Luciana dela. Hermínia percebe o tumulto e ordena:
- Suzana e Luciana! Vão pra minha sala agora! Sônia e Sandra e vocês que assistiram a briga, venham também!
Depois de tudo explicado, Hermínia determina:
- Vão ficar depois da hora e suas mães serão chamadas. Desta vez darei uma chance, mas na próxima serão suspensas.
Soraya volta com Suzana que ficou depois da hora e passa-lhe uma repreensão:
- Só faltava esta agora! Mas você vai se imendar! Ah, se vai!
- Eu tô cheia!! – Suzana sobe de carreira as escadas sem ouvir Soraya
- Suzana! Volta aqui, menina!
No quarto, Suzana tem uma crise, jogando as coisas no chão, gritando. Soraya, enérgica, bate na porta:
- Abre ou eu arrombo esta porta! Eu chamo o Alfredo!
- Me deixa em paz!
- Abre a porta! Não sabe mais se controlar? Será que vou ter que chamar um médico pra te dopar?
Suzana abre, mas olha para a mãe com revolta.
- Eu tô cheia do meu pai! Só me critica, só vê defeitos em mim! Eu quero morrer!
- Para com isso, Suzana!
- Eu não agüento mais! – Suzana berra e chora, completamente fora de si e jogando as coisas no chão novamente, fazendo uma cena e Soraya toma uma atitude. Como é contra bater, joga-a na cama, segurando seus braços com as mãos e seu tronco entre as pernas.
- Me solta, mãe!
- Não! Só quando você se acalmar!
Suzana tenta reagir, mas não tem coragem de desrespeitar a mãe. Chora mais ainda sem o menor controle.
- Mãe, eu vou ficar quieta, prometo. – Suzana sente-se vencida.
Vendo que ela não vai reagir, Soraya a solta e pede que Odete fique com ela enquanto liga para Vitor. Após a breve conversa com o cunhado, Soraya fala com Suzana:
- Suzana, você vai a um retiro com seu tio Vitor no próximo feriado.
- Quê?!
- Isto mesmo. Você vai ter tempo pra poder refletir num local tranqüilo.
- Mas mãe...
- Suzana, não tem mas, você vai. Suas primas podem ir com você se quiserem, seu tio convidou todas.
- Eu não quero ir!
- Tem outra opção: fica na casa da sua avó, mas pra lá irá sozinha.
- Saco... – sussurra de raiva entre os dentes.
- Quê?
- Não...nada.
- Então, está resolvido. Você vai com suas primas e seu tio.